Yerma aventura para montar

Partituras manuscritas e sopranos assustadas com dificuldades do papel marcaram produção da ópera

João Luiz Sampaio, ENVIADO ESPECIAL, MANAUS, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2010 | 00h00

 Montar Yerma foi uma aventura. As partituras estavam ainda na versão manuscrita e o festival precisou encomendar uma digitalização. Mais difícil, porém, foi encontrar uma soprano para o papel-título. Villa-Lobos escreveu a ópera a convite de um teatro americano, nos anos 50, pouco antes de morrer. A inspiração era a peça de mesmo nome do poeta Federico Garcia Lorca - mas, como o libreto em inglês custava a ficar pronto, Villa acabou por escrever a música a partir do original em espanhol. Por conta disso, Luiz Fernando Malheiro queria uma soprano espanhola. "Procurei três que aceitaram mas, depois de estudar a partitura, se assustaram com as dificuldades e voltaram atrás." A duas semanas da estreia, ele resolveu procurar a soprano brasileira radicada em Viena, onde integra o elenco da Staastoper, Eliane Coelho. Ela topou o desafio e partiu para o Amazonas. "Eliane nos salvou."

Além de Yerma, serão apresentadas ainda Romeu e Julieta, de Gounod, Guerras de Alecrim e Manjerona, de Antonio Teixeira, La Cenerentola, de Rossini, e Lo Schiavo, de Carlos Gomes. Um ano brasileiro? "Não foi proposital", diz Malheiro. "Queria fazer a Yerma pelo absurdo que era ela estar longe dos palcos. A única montagem brasileira, cortada e semi-encenada, aconteceu nos anos 80, no Rio. E o Schiavo era o próximo da lista de óperas de Carlos Gomes que temos feito."

Futuro. Em texto que abre o programa, o governador Omar Aziz fala do Festival Amazonas de Ópera como "joia maior da nossa agenda cultural". Nem sempre foi assim - e, ao longo de quase quinze anos de história, o festival precisou brigar com manifestações culturais locais por patrocínio e espaço. "A realidade hoje é outra", garante Malheiro. "O festival se integrou à vida cultural da cidade, até porque passou a incluir cada vez mais artistas locais. Além da Amazonas Filarmônica, criamos, por exemplo, uma orquestra formada por jovens, que vai fazer sua estreia na montagem de Romeu e Julieta. Podem mudar as pessoas, mas o festival tornou-se uma marca sólida." O evento, a princípio bancado apenas pelo governo, hoje precisa buscar com a iniciativa privada metade de seus custos totais, em torno de R$ 4 milhões.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.