Yazbek em busca de suas raízes e origens

Em As Folhas do Cedro, autor mostra mulher que revisita seu passado

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2010 | 00h00

O teatro de Samir Yazbek é um teatro do encontro. Ou de busca pelo encontro. As histórias mudam. Os enredos parecem completamente distintos. Mas podem quase sempre ser lidos como jornadas de autoconhecimento. Tal traço já se delineava em O Fingidor, peça que lhe rendeu notoriedade em 1999, na qual esquadrinhava a figura de um Fernando Pessoa defrontado com a morte próxima e a angústia. Continuou a despontar em alguns de seus textos recentes, como A Noite do Barqueiro (2009).

E pode ser novamente encontrado em As Folhas do Cedro, montagem que vem a público hoje, no Sesc Vila Mariana. Na peça, Yazbek evidencia uma mulher de meia idade, filha de um casal de imigrantes libaneses, que tenta reinterpretar a própria história familiar. À mão, a personagem não tem novos fatos ou informações, mas apenas o desejo de compreender a figura do pai, que a abandonou na infância. "Dentro de mim, estou escrevendo essa história há muitos anos", observa o dramaturgo.

Muitos elementos pessoais de Yazbek - que também tem ascendência libanesa - entraram em jogo na composição da obra, mas ele tentou livrar-se do cunho autobiográfico do texto ao construir um espaço cênico onde intercala aquilo que seria a realidade aos planos da memória e da imaginação. Uma distinção que não contamina apenas o texto, mas que também sobressai na cenografia e no desenho de luz.

"Sempre compactuei com a visão do Tolstói, de que falar da própria aldeia é um jeito de falar do mundo, mas não queria fazer uma peça histórica ou realista", comenta Yazbek, que assina texto e direção. "Então, para criar uma tensão, coloquei a história sob o ponto de vista dessa filha, porque achei que instaurar o olhar dela era uma maneira de conseguir se comunicar com o público, e que é aí que caberia também colocar as contradições do mundo contemporâneo."

Pode parecer pouco plausível essa presença de questões contemporâneas em um enredo que se coloca como um acerto de contas com o passado. O intento, porém, flui com certa naturalidade.

Narradora da própria história, a protagonista (Gabriela Flores) se vê colocada em um espaço de fronteira entre o tempo em que vive e o de seus pais, a caminhar no limite entre o Ocidente e o Oriente, o moderno e o arcaico, o sagrado e o profano.

Arquétipos. O conflito desses mundos opostos está materializado nos personagens do pai e da mãe. Sem nomes próprios, como se encarnassem figuras quase arquetípicas, eles demarcam universos distintos: à matriarca, cabe a defesa da tradição e da segurança. Já o homem, surge como um representante do gosto pelo desconhecido, pela aventura, e ecoa mitos como o do Ulisses, em sua longa Odisseia.

Quem dá vida a esse personagem do pai é o ator Helio Cicero, parceiro constante de Yazbek desde O Fingidor e membro da companhia do dramaturgo, Arnesto Nos Convidou. Na trama, ele larga a família em São Paulo, durante os anos 70, e parte para o Norte do País, onde participa da construção da Transamazônica.

"A filha sempre teve uma visão estereotipada, parcial desse pai. A peça capta o momento em que ela está relativizando essa figura e consegue olhar para ela. Durante muito tempo ela tomou o partido da mãe. Mas, aos poucos, descobre em si própria um impulso de vida muito parecido com o dele", observa Gabriela Flores, que constrói uma personagem que oscila entre o passado e o presente, conduzindo o espectador a observar, como cúmplice, as filigranas de sua perspectiva dos fatos.

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