Yayoi Kusama volta a SP com sua arte

A artista Yayoi Kusama não é umadesconhecida do público brasileiro. Apenas nos últimos anosparticipou da Bienal de São Paulo (1998), de uma exposição dearte japonesa no Masp (1999) e, este ano, do evento Ares ePensares organizado pelo Sesc. Mesmo assim, de certa formaapenas hoje a artista que realizou a ponte entre a arte japonesae a arte pop ocidental, que se notabilizou em todo o mundo pelasperformances e happenings que são um dos pilares da arte dacontracultura das décadas de 60 e 70 - ao lado de ícones comoAndy Warhol e Yves Klein - está debutando em grande estilo nocircuito das artes plásticas. A exposição de gravuras que o público pode visitar apartir de amanhã na Galeria Deco é a primeira oportunidade dever reunidos um conjunto significativo do trabalho dessafascinante artista de 73 anos, que combina uma atitudeextremamente arrojada - o que faz com que a crítica muitas vezestenha relacionado seu trabalho com o conceitualismo eminimalismo característico dos anos 90 - com um quadro de gravedistúrbio emocional e psicológico, canalizado por ela para acriação artística. Sua perturbação é tão intensa e profunda quea artista acabou optando por morar em um asilo, próximo ao qualmantém seu ateliê. Antes disso, no entanto, ela peregrinou pelo Ocidente embusca de oxigênio, chegando a Nova York em 1958. "Não deixei oJapão; fugi dele, onde fui rotulada de louca e banida docircuito das artes", explicou ela em entrevista ao New YorkTimes.O diagnóstico de sua perturbação - neurose obsessiva - casaperfeitamente com o padrão de repetição incessante que vemos emseus trabalhos. Isso ocorre quer nas esculturas que têm a formade móveis domésticos e são recobertas de formas que lembramfalos, quer nas instalações em que mergulha o visitante numaalucinante paisagem de pontos, ou ainda nas gravuras (que compõea partir de uma sucessão quase infinita de padrões que têm muitoa ver com a optical art), que estão em cartaz na cidade. A exposição na Galeria Deco reúne 26 gravuras da artista pertencentes a três fases distintas. A primeira delas é a deauto-retratos, realizados pela artista por meio da sobreposiçãoobsessiva de bolinhas e pontos, reafirmando o profundo interessepor sua própria história. Como diz a crítica americana AlexandraMunroe, o trabalho funciona para ela como uma espécie deprocesso terapêutico, de autoconhecimento. "Parece que à medidaque se familiarizava com os sintomas de sua doença e suasorigens na infância, sua arte se tornou cada vez mais aexpressão de seus problemas." Também há trabalhos relacionados com o tema daalimentação (outra obsessão da artista, junto com o sexo), emque cria imagens de abóboras deformadas a partir de um mesmopadrão de desenho repetido. E finalmente um terceiro grupo decomposições abstratas, nas quais o ritmo consegue ser ainda maisintenso e vibrante do que no caso dos leguminosos distorcidos. Dentre as 26 obras expostas, oito são inéditas echegaram hoje a São Paulo, trazidas pessoalmente pelaproprietária da galeria, Hideko Suzuki Taguchi, que havia ido aoJapão conversar com Yayoi sobre a possibilidade de trazer aoBrasil uma retrospectiva de seu trabalho - projeto que aindaestá em negociações e pode tornar-se realidade em pouco tempo.Serviço - Yayoi Kusama. Diariamente, das 10 às 20 horas. Galeria Deco. Ruados Franceses, 153, tel. (11) 289-7067. Até 15/12.

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