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Yasmina reza e o falso verniz da razão

Emílio de Mello dirige aclamado texto da autora francesa

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2011 | 00h00

"Não fui eu que corri até ela, não. É Yasmina Reza que vem atrás de mim", graceja Emílio de Mello, diretor que assina pela segunda vez a encenação de um texto da aclamada autora francesa.

Em 2006, Mello conduziu o casal Nicette Bruno e Paulo Goulart em O Homem Inesperado. O convite, à época, partiu de Daniel Filho. Agora, é a vez de assinar Deus da Carnificina, texto de Yasmina que estreou em Zurique, e logo caiu no gosto de Deborah Evelyn. Nesta versão brasileira, a atriz integra o elenco ao lado de Julia Lemmertz, Paulo Betti e Orã Figueiredo.

Depois de passar pelo Rio, a peça chega amanhã ao Teatro Vivo. Trata-se de uma das obras de maior ressonância da carreira da dramaturga. Mereceu montagem em Londres, trazendo Ralph Fiennes como astro. Chegou a Paris, interpretada por Isabelle Huppert, e com direção da própria Yasmina. E foi a sensação da temporada 2009 da Broadway, quando arrebatou três prêmios Tony.

Tanta repercussão certamente guarda relação com a escolha do casting e as opções de cada um dos encenadores mundo afora. Mas pode ser melhor entendida se nos atermos ao texto, que começa como uma simples comédia de costumes. Muito trivial, muito familiar aos olhos do espectador. E, gradativamente, descamba para uma estrutura que beira a melhor tradição do teatro do absurdo. Tantas são as contradições do homem dito civilizado expostas em cena que, mesmo diante da carnificina simbólica a desenrolar-se no palco, não resta ao espectador outra opção que não seja o riso.

O mote de Deus da Carnificina já impõe, desde o princípio, certo desconforto. Assistimos ao encontro de dois casais, que precisam administrar uma situação de conflito. Armado de um pau, o filho de um deles bateu no outro até arrancar-lhe dois dentes.

Ao redor de uma mesa montada com peças de Lego (cenário nada realista de Flávio Graff), a dupla Michel e Verônica - pais do menino agredido - recebe seus antagonistas, Alain e Annette. A princípio esforçam-se para parecer amistosos. São cordiais. Servem café e doces como se tivessem visitas. Querem demonstrar que são dotados da racionalidade que, supostamente, faltaria às crianças. Sem demora, porém, são as diferenças entre os adultos que saltam a primeiro plano. "Eles são, no início, muito razoáveis. Porém, à medida que a discussão avança, chegam a um estado de absoluta selvageria. Acabam rompendo com qualquer limite de civilidade", comenta o diretor.

Divergências sociais e intelectuais opõem os dois casais. Mas elas também podem ser vistas dentro das próprias relações conjugais. Deborah Evelyn vive a mulher que se pretende esclarecida, defensora dos bons costumes, e despreza o marido, algo simplório e rude. Ela é escritora; ele, um simples vendedor de utensílios domésticos.

No outro extremo, Julia Lemmertz ressente-se pela ausência do personagem de Paulo Betti, sempre mais preocupado com seus negócios do que com qualquer aspecto da vida familiar. Advogado de uma indústria farmacêutica, ele se recusa a retirar um medicamento do mercado por conta de seus maléficos efeitos colaterais. Sua figura resvala no estereótipo do homem ganancioso e reforça a dimensão política de Deus da Carnificina.

A permear esta e outras criações de Yasmina Reza, o diretor Emílio de Mello consegue perceber um traço comum: a vontade das personagens de se libertarem das regras e amarras que impuseram a si próprias. Do seu fictício verniz de seres evoluídos, bem-comportados.

Em suas declarações, a autora costuma dizer que está interessada justamente nessas contradições. Define seu trabalho como um "teatro de tensões".

É dessas tensões que surgem em cena que Mello se alimenta para impulsionar as interpretações dos atores. Das pulsões que governam cada personagem, e também daquelas que se estabelecem entre eles.

"Esses personagens não têm interesse isoladamente, mas a partir do momento que se relacionam uns com outros. É aí, nesse embate, que eles passam a existir", aponta o encenador.

Tal opção se traduz em uma recusa a qualquer leitura psicológica do texto e numa tentativa de presentificar as ações. "Não interessa o que eles foram um dia, seu passado, mas o que vai acontecer na hora em que estiverem diante do público."

DEUS DA CARNIFICINA, UMA COMÉDIA SEM JUÍZO

Teatro Vivo. Av. Chucri Zaidan, 860, 7420-1520. 6ª, às 21h30; sáb., às 21 h; dom., às 19 h. R$ 50 (6ª e sáb.) e R$ 70 (dom.). Até 5/6.

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