XPTO ocupa as ruas de São Paulo

Pela primeira vez em sua trajetória teatral de 18 anos, o grupo XPTO está apresentando um espetáculo nas ruas de São Paulo. Estação Cubo é fruto de uma pesquisa de seis meses e foi o primeiro projeto a estrear, em agosto, entre os 23 contemplados com a verba do Programa Municipal de Fomento ao Teatro da Secretaria Municipal de Cultura, no valor de R$ 276,8 mil. A performance ainda vai ocupar diversos espaços públicos até o início de novembro.Atores profissionais e amadores selecionados pela companhia saíram pela cidade à procura de depoimentos, histórias pessoais e experiências de cidadãos comuns na grande metrópole. O resultado surpreendeu a todos. Surgiram pérolas como a de uma migrante nordestina que, depois de viajar de navio pela costa brasileira, com destino a São Paulo, foi parar no Alasca. "A história era tão fabulosa que optamos pela omissão do Alasca, substituindo-o por São Paulo. Ninguém acreditaria, mas foi mesmo verdade", contou o diretor Roberto Firmino.Com um material riquíssimo nas mãos, o XPTO realizou oficinas de interpretação com diretores convidados, além de workshops sobre cenografia e dramaturgia. Um cubo de 36 metros quadrados com toda a estrutura vazada foi desenvolvido pelo diretor Oswaldo Gabrielli. Segundo os produtores, esta foi a maneira de colocar todas as cenas em constante diálogo, para que fossem apreciadas de todos os ângulos.No domingo, o Museu do Imigrante, na zona leste da capital, recebeu o grupo no pátio da antiga estação ferroviária, e um público diverso pôde assistir a fragmentos da vida cotidiana encaixados em um texto coerente e poético, que não se limitava a estereótipos, proporcionando uma visão peculiar e humanizada de cada indivíduo ali representado. Desde o guarda do metrô preocupado com sua postura embrutecida e ríspida diante dos passageiros até a imigrante italiana que recorda suas origens - um dos momentos mais líricos do espetáculo -, todos os personagens se utilizavam da memória afetiva para resgatar emoções verdadeiras, sem cair no dramalhão.A platéia, compenetrada, interagia com os atores, que procuravam instigá-la, aproximando-se e puxando conversa. "O objetivo do projeto é levar o teatro a um público que não freqüenta peças, mas nem por isso é insensível a ponto de não compreendê-las", explicou Firmino. Foi o caso dos moradores de rua que dormem no albergue próximo ao local. Entusiasmados, vibravam quando as atrizes apareciam. Ao contrário da empolgação desses espectadores, uma família muçulmana sentiu-se ofendida numa cena em que prostitutas discutiam sobre sua profissão. Tão logo as mulheres apareceram, o pai levantou-se e saiu apressado com as filhas.Mais interativa, uma turma de cinco senhoras acompanhava atentamente as tramas. Elas riam da beata debochada e gritavam para o suicida pular de cima do cubo. No final da montagem, elogiavam o "ritmo alucinado" da Estação Cubo. "Eu achei formidável. É um teatro bem jovem e muito engraçado. Eles conseguiram sintetizar a rotina frenética da vida moderna", comentou Vilma Feltrin, de 74 anos.Simone Mello, uma das atrizes do XPTO, não tinha idéia de como seria a recepção dos espectadores na rua. "Era uma incógnita que só seria comprovada depois da estréia." A surpresa foi gratificante. "O espetáculo combinou muito bem com todo o caos da cidade, os sons das pessoas que passavam e o clima geral à nossa volta. Os espectadores definitivamente completaram a apresentação", comemorou.Estação Cubo - De 17 a 20 de outubro, no Parque do Ibirapuera, próximo ao Museu de Arte Moderna (MAM). Qui. e sex., às 20 horas. Sáb. e dom., às 14 e às 18 horas. Do dia 29 de outubro a 3 de novembro, apresentações no Pátio do Colégio, de ter. a sex., às 18 horas; sáb. e dom. às 16 horas e às 18 horas.

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