Xororô

O Pedrão é o mais velho do time e, só por isso, o capitão. Acha que a principal função de um capitão é pressionar o juiz, e que juiz deve ser pressionado sempre. Tem que ouvir reclamações quando apita qualquer coisa, certo ou errado. E o encarregado de reclamar é o capitão. Respeitosamente, alto nível. Mas sempre.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2016 | 02h00

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Segundo Pedrão, o juiz precisa saber que estão de olho nele. Que ele não está enganando ninguém. E a missão de expressar essa desconfiança constante e implacável é do capitão. Que, afinal, também é uma autoridade em campo. Uma autoridade menor, mas autoridade. Por isso, as torcidas se acostumaram a ver o Pedrão conferenciando com o juiz, às vezes longamente. Alguns juízes não querem conversa e mandam o Pedrão se afastar. O Pedrão se afasta, mas reclamando.

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E quando o juiz é estrangeiro? Em que língua o Pedrão reclama? Que se saiba, o Pedrão é monoglota convicto. Como ele faz? Um dia, o Pedrão contou, para um grupo de amigos. Com instruções para jamais revelarem seu segredo. Não importava se o juiz era brasileiro, castelhano, alemão ou coreano. Quando pressionava o juiz, o Pedrão só dizia “Xororo”. Nenhuma palavra inteligível, só “xororo, xororo, xororo”.

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O importante não eram as palavras, era a cena. Era o juiz se sentir pressionado e a torcida ver o Pedrão pressionando o juiz, cumprindo sua obrigação de capitão, “Xororo, xororo, xororo”, só variando o tom e gesticulando muito. Alguns juízes já conheciam o Pedrão e quando ele se aproximava diziam “Ih, lá vem xororo”. Outros davam risada. Mas alguns não entendiam. Diziam “O quê?” E o Pedrão: “Xororo, xororo, xororo”.

– O quê?!

– Xororo, xororo, xororo.

Sempre com muito gesto.

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Um dia, contou o Pedrão, o juiz era da Guatemala. Dois minutos de jogo, falta contra o time do Pedrão. O juiz em cima: piiii!. E o Pedrão em cima do juiz: “Xororo, xororo, xoro...”. Não completou sua argumentação. Foi expulso de campo antes do último “ro”. Cartão vermelho. O juiz da Guatemala dando pulos. Se houvesse cartão roxo, mostraria o roxo.

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Até hoje, o Pedrão não sabe o que quer dizer “xororo” na Guatemala. Imagina que seja algo envolvendo a mãe ou algum exótico hábito sexual. Hoje, antes do “xororo”, ele testa o juiz, recitando um verso de música sertaneja ou um trecho do hino nacional para ver sua reação. Mas sempre gesticulando.

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