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Xixi no Municipal, martírio das mulheres

Não pensei nisso quando projetei? Deixei a parte dos banheiros femininos para algum auxiliar?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2018 | 02h00

Para você Audálio Dantas, bravo

jornalista, íntegro, maior amigo

 

Prezadas senhoras,

Quem vos escreve é um dos muitos fantasmas que povoam esse Teatro Municipal de São Paulo onde me refugiei para sempre desde 1928. E a ideia dessa carta busquei em Elio Gaspari. Projetei essa casa com carinho e paixão e costumo vagar pelos corredores, coxias, salas de ensaios, foyer, bar, sento-me nos camarotes, vejo óperas, bailados, concertos de orquestras e piano. Poderia ter ficado na Rua Pirapitingui, 111, ali vivi anos, mas agora a casa está ocupada pela Editora Global, que a restaurou e se dedica a disseminar literatura e ideias. 

Fico por aqui, sinto afeto por esse lugar. Relembro a voz de Caruso, Beniamino Gigli, Mario del Monaco, Ella Fitzgerald, Paulo Fontes, Elizeth Cardoso, Maria Callas e sua rival Tebaldi (como se odiavam), ou o piano de Rubinstein, Friedrich Gulda (ah, que homem difícil), Nelson Freire e Guiomar Novaes, a elegância das danças de Nijinsky, Nureyev, Marcia Haydée, Dalal Achcar, Serge Lifar, do Balé da Cidade, as regências de Stravinski, Toscanini, Diogo Pacheco, Villa-Lobos, Mikkelsen, Eleazar de Carvalho, Karabtchevsky e Leonard Bernstein. Belos tempos. Não que esses não sejam, apesar do meu teatro ter sofrido alguns maus-tratos com pessoas capciosas. Mas o que me confrange, vou dizer, é assunto diferente da arte.

Não imaginam como fico constrangido ao ver essa minha sala lotada e o sofrimento das mulheres nos intervalos, alinhadas em extensa fila para os escassos banheiros femininos. Fantasma, portanto invisível, circulo entre elas e testemunho o aperto, a angústia, o tormento e a ansiedade de cada uma. Tem quem se contorce em cólicas, outras comprimem o ventre, alguma suspiram arfantes procurando se aliviar. Porque estão ali para se aliviar com um simples xixi. 

Nada mais agônico que sentir essa vontade sem poder satisfazê-la. Há mulheres que soluçam, já vi lágrimas em algumas. Há quem cruze as pernas, como se isso fosse capaz de segurar uma bexiga repleta e forçando caminho. Tudo por culpa minha, confesso. Não tenho como me penitenciar. Se pudesse me materializar, antes do espetáculo entraria no palco e pediria desculpas às distintas senhoras por esse sofrimento. Prosaico, sim, trivial, alguns consideram vulgar, deselegante ou chulo. Mas fazer xixi faz parte de nossa natureza. Não há quem não o faça.

Quem visitou essa minha casa conhece a insuficiência dos banheiros femininos. Há duas cabinezinhas em cada patamar. E mulher precisa de um ritual, não é como homem que faz em pé e tem dezenas de mictórios. Não pensei nisso quando projetei? Deixei a parte dos banheiros femininos para algum auxiliar incompetente, rabaça? Será que naquela época, mais de cem anos atrás, eram poucas as mulheres que frequentavam o meu Municipal? Será que a etiqueta recomendava que era feio ir ao banheiro? Imaginem os cronistas da época noticiando: “Fulana de tal foi vista saindo do banheiro na ala de frisas, depois de ter se aliviado com um xixi generoso?”. Ou aquelas vestes volumosas tornavam o ato de ir ao banheiro tão complicado que a maioria não tomava água ou bebidas o dia inteiro, chegando com as bexigas secas?

Não é possível separar uma sala e enchê-la com centenas de urinóis, como vi na cena do baile no filme O Leopardo, de Luchino Visconti. As autoridades sanitárias não permitiriam. Graças à condição de ser etéreo, às vezes vou ao cinema, grande invenção, gostaria de ter projetado uma sala dessas. Com muitos banheiros para mulher, claro.

O que me incomoda é que não previ o futuro e a situação das mulheres. Quantas, vestindo calça comprida e camiseta, vejo entrar aqui no teatro? Seria inadmissível em outros tempos. Tudo mudou. Essas filas de mulheres martirizadas, diante dos banheiros me aturde, bato no peito, mea-culpa, mea-culpa. Elas sofrem para ver arte. No entanto, quero dividir a responsabilidade. Quantos engenheiros e arquitetos passaram pela Prefeitura desta cidade e nada fizeram, não olharam para os banheiros, alguns talvez nem tenham vindo ao meu teatro? 

Posso citar Anhaia Melo, Fábio Prado, Cristiano Stockler das Neves, Paulo Maluf, Olavo Setúbal, Mário Covas, Figueiredo Ferraz, Gilberto Kassab. Nada. O Gestor fujão acho que nunca entrou aqui. E o atual, neto de conhecido político, no tempo em que a palavra político não era palavrão, talvez possa dar um pulo e examinar a situação. Fazendo banheiros no teatro teria o voto das mulheres aflitas. Sem mais, prezadas senhoras, aceitem meu pedido de desculpas. Soube que há expressões modernas para significar as revoltas femininas: Time’s Up e #MeToo! Alio-me aqui, a vocês.

Francisco de Paula Ramos de Azevedo

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