'Xingu', de Cao Hamburger, é exibido em Berlim

É uma discussão interessante e, mais do que isso, importante. Meryl Streep arrastou uma multidão anteontem para a coletiva de "A Dama de Ferro", que estreia amanhã no Brasil. Meryl recebe um Urso de Ouro por sua carreira na Berlinale deste ano. Terá outra coletiva, específica para falar do prêmio. A de terça foi sobre sua participação no filme a respeito da primeira-ministra Margaret Thatcher. Como se representa uma personagem? Como se apresenta, uma pergunta que pode ser formulada à diretora. Meryl disse uma coisa que pode gerar polêmica. "Todas nós (mulheres) temos mais em comum com Margaret do que gostaríamos de admitir." O feminismo, talvez?

AE, Agência Estado

16 de fevereiro de 2012 | 11h02

Esse mesmo tema, o da representação histórica, pode ser retomado a partir de "Xingu", o novo longa de Cao Hamburger, que estreia dia 6 de abril no Brasil - em plena Sexta-Feira Santa. A produtora Andrea Barata Ribeiro acrescenta: "Para ver se Deus ajuda a gente". Havia cerca de 50 pessoas - numa sala de 300 - na sessão de imprensa de "Xingu". No sábado, quando o filme teve sua primeira exibição com público, a sala, muito maior, estava lotada. A coletiva também teve pouca gente, mas em defesa de Cao e do filme deve-se dizer que tudo isso ocorreu durante a projeção do concorrente chinês, e a imprensa estava, majoritariamente, no Palast. Quantidade não quer dizer, necessariamente, qualidade. Foi uma das melhores coletivas desta Berlinale.

Pode ser que tenha influenciado o fato de o filme interessar tanto aos brasileiros. "Xingu", ao reconstituir o esforço dos irmãos Villas Boas para criar o Parque Nacional do Xingu, corria o risco de ser hagiográfico. Não é. No quadro do que não deixa de ser um esforço para salvar as nações indígenas, o filme narra a história da desintegração de uma família. Os irmãos, de três, reduzem-se a dois e os sobreviventes (Orlando e Claudio) amargam a culpa pela morte do terceiro (Leonardo). Como é preciso negociar cada movimento com os militares, durante a ditadura, Orlando e Claudio fazem-se acusações. E, no limite, apesar de todo o esforço, o parque carrega a sensação de um paraíso perdido para a civilização. Na última tribo contactada pelos Villas Boas, havia 600 índios. Morreram mais de 500 antes de chegarem ao Xingu.

Todos, dos atores (João Miguel e Caio Blat) ao diretor, foram unânimes em dizer que não foi uma simples filmagem. Foi uma experiência reveladora, uma espécie de redescoberta do Brasil. Quando se fala em índios, o teor da conversa, até mesmo entre ecologistas bem-intencionados, a preocupação é quase sempre preservacionista. Como impedir que eles sejam contaminados pelo consumismo da civilização? Um índio não pode desejar um tênis Nike? "O objetivo da criação do parque foi preservar a cultura dos índios, mas não impedir o curso da história. Se eles quiserem o tênis Nike, é uma escolha deles. Me interessa muito mais a via inversa. Teremos um dia a humildade de ver que podemos aprender com os índios?", pergunta-se o diretor. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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