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Humberto Werneck
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Xaxado nacional brasileiro

Faz tempo que sou brasileiro, e, confesso a você, começo a estar cansado. Não tanto pelos anos que, à minha revelia, foram se acumulando, eu que cheguei a me julgar nascido para a vida de rapaz. Passou rápido. E ninguém me avisou que ia ser assim. Que ia ter sofrimento cívico, inclusive. Não me queixo à toa. Olhe os escombros deste ano de 2015 e me diga se não dá vontade de pedir para apear do Brasil (não, não estou querendo me mandar para Miami); poder dizer, como Drummond, que “também já fui brasileiro, moreno como vocês...”.

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

29 de dezembro de 2015 | 02h00

Saturado de notícias ruins, a cada passo tenho me lembrado de Otto Lara Resende. Quando ele se foi, não do Brasil, da vida, em 28 de dezembro de 1992, estávamos em pleno bafafá Collor de Mello. Pesadelo light, comparado ao que hoje nos assombra, mas penoso o bastante para que Otto, exasperado, considerasse a possibilidade de trancar matrícula de brasileiro. Um pouco como fazia, ali pelos anos 1930, 40, 50, a esplêndida figura que foi o cearense Evandro Pequeno, intelectual e artista sem obra que esmerilhou na boemia carioca seus variados talentos. Quando o Brasil que tanto amava lhe parecia ter se tornado um caso sem solução, o grande Pequeno se refugiava numa fantasia supranacional, como se nossas perebas não lhe dissessem respeito: “Sou um sueco em trânsito”, declarava. Propôs a criação de uma “Liga contra o Brasil” e passou a torcer pelo dia em que o exército vermelho do Paraguai invadiria o País. 

Otto, como Evandro, esperneava, mas nem por isso entregava os pontos. Achava que, não sendo passageiro de primeira viagem, não tinha direito de enjoar a bordo do Brasil. Como estaria se sentindo ele neste momento em que cunhas tenebrosas, para não falar na lama em sentido até literal, se intrometem entre nós e a pátria com que sonhamos? No mínimo reprisaria o desabafo que fez em meio à lambança collorida: “Paisinho duro de roer, o Brasil. Será que melhora quando ficar pronto?”.

Nunca vai ficar pronto, sabia o Otto. Jamais será inaugurado. O diabo é que de vez em quando o Gigante Adormecido autoriza a impressão de que acordou e entrou nos trilhos, e que mesmo com atraso finalmente vamos rumo ao tal futuro pressagiado por Stefan Zweig. Millôr Fernandes apanhou a deixa de Zweig e podou o otimismo: “O Brasil é o país do futuro, sendo que o mesmo se aproxima a cada dia que passa”. Vamos trotando atrás daquela cenoura que alguém pendura a um palmo do focinho do cavalo, inalcançável mas apetitosa o suficiente para fazer com que a alimária não desista.

Para mim, para tantos, a quimérica cenoura foi durante um tempo o Milênio Socialista, miragem capaz de justificar vigorosas pedaladas ideológicas. Também os sonhos são passíveis de ajustes fiscais. (Se interessa saber, não bandeei para o cada-um-por-si do Milênio Capitalista.) O importante, nos sopra a Poliana, é não esmorecer, ainda quando seja necessário remarcar o sonho, e, se a barra pesa, inverter o sentido da marcha. Dois passos para a frente, um passo para trás, de olho na cenoura de um Primeiro Mundo – eis o xaxado nacional brasileiro que nos habituamos a dançar. 

Este é um país que vai para a frente, e para atrás, interminavelmente. Já estaria bom assim, 2-1, 2-1 – mas não: o que era xaxado parece às vezes ter virado coreografia em que a gente mais recua do que avança, 1-2, 1-2. Olha que nem estou falando dos pod(e)res da República. Veja a troca de estocadas e coices aqui embaixo mesmo, na planície das relações pessoais, onde está cada vez mais difícil dialogar sem que o papo termine em hematomas na alma. As redes sociais são o ringue onde vamos regurgitar o que há de pior em nós. No Facebook, no boteco, na alcova – em toda parte você já sabe que em determinados assuntos é prudente não tocar. Aliás, não me queira mal por ter tocado neste assunto. 

Melhor voltar ao Otto Lara Resende e propor que adotemos, em qualquer caso, o verbo que ele inventou para designar sua batalha de perfeccionista do texto. Otto viveu e morreu tentando “despiorar” o que aos demais já parecia irretocável. Sei que não é bem o caso do nosso país, carente de muito mais que retoques – mas que tal um esforço individual e coletivo para despiorar o Brasil? Já estará de bom tamanho se a gente conseguir dançar de novo o dois-pra-frente-um-pra-atrás do velho xaxado nacional. 

E vamos a 2016, seja lá o que for isso.

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