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Wyler e as virtudes da velha guarda

Sai o deslumbrante Tarde Demais, que deu o Oscar a Olivia De Havilland

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

Três Oscars de melhor filme e direção - por Rosa da Esperança, Os Melhores Anos de Nossas Vidas e Ben-Hur, nos anos 1940 e 50 -, a Palma de Ouro em Cannes - por Sublime Tentação, em 1957. William Wyler ganhou os prêmios mais importantes do mundo e teve entre os seus defensores um dos críticos mais influentes de todos os tempos, André Bazin, que criou toda uma teoria em torno ao uso que ele fazia da profundidade de campo. Wyler, o perfeccionista, é um caso raro no cinema. Os críticos dizem que era um estilista sem estilo e ele próprio gostava de ser assim definido.

Tudo isso vem a propósito de Tarde Demais (The Heiress), que a Versátil está lançando em DVD, com direito a extras que retraçam a carreira e a importância do diretor. Nascido na França, mas de nacionalidade norte-americana, por volta de 1960, em pleno surgimento da nouvelle vague, ele inscreveu nos seus cartões de apresentação as iniciais A.V., de ancienne vague, velha onda. Considerava-se em oposição ao movimento que, irradiando-se de Paris, ganhava o mundo. No fim da vida, transformado em globe trotter profissional, Wyler viajou o mundo documentando suas andanças com o último modelo de Canon da época. Sérgio Augusto, que o entrevistou, diz que ele abusava, nos filmetes domésticos, de todos os fricotes visuais que nunca se permitiu nos 65 filmes que realizou em 44 anos de carreira e que esculpiram sua fama, seu mito, em Hollywood.

Wyler foi sempre um clássico - nada melhor do que conferir, assistindo a Tarde Demais. O filme baseia-se num romance de Henry James, Washington Square, mas Wyler não adaptou diretamente o escritor e sim a peça que Ruth e Augustus Goetz escreveram a partir do livro. Faz sentido. "Sóbrios, ascéticos, elegantemente teatrais", segundo Sérgio Augusto, os melodramas de Wyler caprichavam na psicologia. E como ele apreciava as escadarias! O título brasileiro - o original é A Herdeira - nasce justamente do desfecho, da imagem impressionante de Olivia De Havilland na longa escadaria com o candelabro repetindo as palavras. Tarde demais...

Olivia ganhou o Oscar por seu papel como a herdeira que, contra os desejos do pai, se envolve com arrivista -o personagem de Montgomery Clift, antecipando dois anos o caçador de fortunas de Um Lugar ao Sol, de George Stevens, com Liz Taylor. No filme, Olivia não é particularmente bonita e o pai a adverte de que Clift está atrás de seu dinheiro, não dela. A filha descobre tardiamente que o pai tinha razão.

Realismo social. Entrou para a história a forma como Wyler quase levou sua atriz à loucura - mas valeu a pena, pelo menos em termos de Oscar. Em busca de determinado efeito, o diretor fez com que Olivia descesse uma escadaria 37 vezes. Na última, à beira de um ataque de nervos, a atriz deixou o leque cair, de tão cansada. Wyler teria exclamado - "É isso!" A Academia de Hollywood validou o grau de exigência e Olivia, a Melanie de ...E o Vento Levou, finalmente ganhou, em 1949, seu Oscar. Era particularmente importante para ela, que sempre viveu às turras com a irmã e Joan Fontaine se antecipara na premiação, ganhando seu prêmio em 1941, por Suspeita, de Alfred Hitchcock.

Olivia, que formou dupla com Errol Flynn numa memorável série de aventuras, era uma atriz extraordinária, Sua transformação, na segunda parte do filme, é um tour de force de interpretação, além de confirmar a importância que Wyler conferia é verossimilhança psicológica de seus personagens. Ele era tão obcecado em seu perfeccionismo que, em A Carta, querendo obter determinado efeito - a sombra de uma árvore numa parede branca -, ele tentou todos os recursos de iluminação disponíveis em Hollywood. Ao ver que não estava conseguindo, fez com que o cenógrafo pintasse a sombra que desejava em tons degradês de cinza. Tudo isso faz parte da lenda do cineasta.

No verbete que lhe dedica em seu Dicionário de Cinema, Jean Tulard analisa a famosa ausência de estilo do cineasta. Wyler nunca revelou uma clara preferência por temas. Ele foi muitas vezes - quase sempre - um adaptador, mas sempre tomou liberdades em relação aos autores em que se baseava. Mais do que por temas, interessava-se por roteiros psicológicos de fundo social. Apesar disso, Bazin chegava a afirmar que poucas assinaturas eram tão fáceis de identificar.

Wyler inteiro aparecia na forma de seus filmes, nessa maneira de utilizar a profundidade de campo, permitindo, à maneira de Orson Welles em Cidadão Kane - com quem gostava de compartilhar o fotógrafo Greg Tolland -, que o espectador fizesse a própria montagem, estudando cada personagem de acordo com seu interesse e vontade. Bertrand Tavernier acha que o Wyler de Tarde Demais às vezes contradiz a observação de Bazin. Pode ser, mas o filme que agora sai em DVD é deslumbrante. Além dos olhos, satisfaz aos ouvidos. A trilha de Aaron Copeland também ganhou o Oscar e poucas vezes o prêmio da categoria foi tão merecido.

TARDE DEMAIS

Direção: William Wyler

(EUA/ 1949, 116 minutos)

Distribuidora: Versátil.

Preço: R$ 44,90

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