Wolfgang Tillmans, cor e forma

Fotógrafo tem sua primeira individual latino-americana no MAM, que também recebe exposição de German Lorca

SIMONETTA PERSICHETTI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2012 | 07h46

Imagens do cotidiano, da banalidade. Objetos e pessoas que são trazidos à visibilidade por um olhar mais atento que parece se perguntar o tempo todo se aquilo merece ser visto. Assim é o trabalho do fotógrafo alemão Wolfgang Tillmans, um dos mais representativos da atualidade e que abre hoje no MAM a sua primeira individual na América Latina.

A exposição, que vem da Serpentine Gallery, de Londres, ganha montagem e recorte exclusivos para a Grande Sala do museu pelas mãos do próprio artista, com obras que não estavam na versão anterior, caso de dois vídeos, e tem curadoria de Felipe Chaimovich, Julia Peyton-Jones, Hans Ulrich Obrist e Sophie O'Brien.

Na mostra ele apresenta sua visão do mundo contemporâneo, uma possibilidade de organizar o caos. Visões particulares de um mundo cada vez mais lotado de fotografias e obsessivo por imagens e que prefere o simulacro ao conhecimento.

Nascido em Remscheid, Alemanha, em 1968, ele começa a fotografar no fim dos anos 1980 e traz para suas criações técnicas das mais variadas, fotos, cartões-postais, imagens analógicas, ampliações em jato de tinta, xerox. Trabalha simultaneamente com vários processos, escolas estéticas e gêneros. "Não quero necessariamente o novo, mas quero mostrar o que o meu olho vê. Como eu vejo o mundo", relata Wolfgang durante visita guiada por sua exposição ainda em montagem à qual o Estado teve acesso.

É o que a crítica de fotografia inglesa Charlotte Cotton definiria como estética "de alguma coisa e nada". Fotografias bidimensionais que se tornam objetos, esculturas pela forma como são criadas, montadas: "Posso dizer que meu trabalho é conceitual, espontâneo, mas, acima de tudo, emocional".

Suas fotografias procuram quebrar com a já conhecida escola de Dusseldorf criada em 1970, a qual acreditava que o mundo era uma sequência lógica, matemática e repetitiva, que teve como expoentes o casal Bernd e Hilla Becher e acabou influenciando vários fotógrafos da contemporaneidade como Andreas Gursky. Aliás, Wolfgang se opõe frontalmente a esse tipo de pensamento, procurando absorver a heterogeneidade do mundo que se lhe apresenta. Herança talvez de sua paixão da infância em observar e acompanhar as estrelas.

"Quando pequeno, juntei dinheiro de vários aniversários e natais para poder comprar meu telescópio. Para mim, a astronomia é a base de tudo para tentar entender quem somos nós." E é desta forma também que ele fotografa as estrelas, planetas. Assim ele registra a passagem do homem pelo mundo, imagens efêmeras: "Vejo a fotografia como um objeto e não apenas informação, representação ou cor. Isso para mim é liberdade, levei 20 anos para perceber isso".

Wolfgang viveu sua adolescência e juventude no meio de várias transformações sociais e políticas, como a queda do Muro de Berlim. Em seu trabalho um olhar atento para essas questões, como o ensaio Fronteiras, em que trata com as variadas possibilidades de compreender esse conceito. Fotos políticas, mas não necessariamente militantes, apesar de Wolfgang gostar de movimentos ativistas. Aprofundamento de conceitos.

E foi com esta mesma ideia que ele começou a fotografar no início dos anos 1990, antes disso virar uma grande moda, seus amigos nas baladas, nas festas, se divertindo. "Queria mostrar isso como uma forma de atitude, de liberdade e nunca de alienação", explica ainda ele.

Uma quebra de expectativas, imagens que desestabilizam nossa ideia de objeto artístico. Assim como a foto das Cataratas do Iguaçu, ou de uma rua cheia de informações. O barulho e o caos que, de repente, se organizam sem deixar de serem protagonistas. Um universo colorido, multifacetado. Mas se, aparentemente, suas fotos são a materialização do banal, da superficialidade, não podemos esquecer que são sofisticadas na forma de serem produzidas e de tratarem os temas por ele abordados. Imagens que não se entregam a um olhar desatento, que precisam de tempo para serem absorvidas.

"Pode parecer banal à primeira vista, para quem não quer se aprofundar no que está vendo. Mas é muito mais do que aparência, imagens cheias de detalhes. Mas não estou aqui para facilitar as coisas", acrescenta.

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