Wittgenstein inspira montagem no CCSP

Dirigido pelo gaúcho LucianoAlabarse, o espetáculo Almoço na Casa do Sr. Ludwig foi umdos destaques da mostra principal da recente edição do Festivalde Teatro de Curitiba, encerrada domingo. Protogonizadapelo ator Luiz Paulo Vaconcellos, a peça conquistou o públicopela contundência do texto e pela interpretação do atorprincipal. Coincidentemente, o mesmo texto chega amanhã aopalco da Sala Jardel Filho, no Centro Cultural São Paulo, emoutra montagem, chamada Ludwig e as Irmãs, com direção deMauricio Paroni de Castro."Acho a coincidência ótima", diz Paroni. "Ela mostraque há uma urgência por esse tipo de temática e é muito bom terduas visões, simultaneamente, nos palcos." O texto é doaustríaco Thomas Bernhard (1931-1989), autor de peças jáencenadas no Brasil como No Alvo, interpretada em São Paulopela atriz Maria Alice Vergueiro. Ludwig e as Irmãs tem tudopara também conquistar o público. Se depois das apresentações emCuritiba não há mais dúvidas quanto à força desse textodemolidor - até então inédito no Brasil -, elas também nãoexistem quanto ao talento do protagonista da montagem paulistana, o ator Ricardo Blat.Manifesto - Quem viu Blat atuando em Na Solidão dosCampos de Algodão, de Bernard-Marie Kolts, conhece seutalento para enfrentar um texto cuja grande qualidade reside noembate de idéias. Ator inquieto, Blat conseguiu imprimirincrível intensidade até mesmo a uma história infantil, aointerpretar O Patinho Feio, na adaptação de Rogério Blat."O que posso discutir através de um personagem? Essa éa pergunta que me interessa no teatro", afirma Blat. "O teatroque gosto de fazer é um manifesto. Determinados códigos econceitos estabelecidos, que deviam ter sido enterrados há maisde cem anos, permanecem vivos por uma espécie de preguiça, dehábito, de acomodação. Um texto como esse acorda as pessoas paraa possibilidade de ver as coisas de uma maneira diferente."Extremamente cáustico ao abordar temas como o teatro e aarte em geral - até mesmo o mecenato entra em questão - e, claro, relações familiares e humanas, Ludwig e as Irmãs foi escritona década de 50 e é livremente inspirado na vida do filósofoLudwig Wittgenstein (1889-1951), misturando ficção e fatosreais. Não é uma biografia do filósofo.Mais importante do que sua vida são suas idéias postasem cena no confronto com suas irmãs. Quando a peça tem início,ele está voltando de um longo período de internação numa clínicapara doentes nervosos, algo que jamais aconteceu. Mas a tensãogerada por esse "fato" - um personagem no limiar da loucura -é fundamental para a atmosfera do reencontro.A peça divide-se em três atos. A espera das irmãs, oreencontro com o irmão e a explosão das tensões entre eles.Paroni enxugou o texto que, se encenado na íntegra, daria umespetáculo de quase três horas de duração. Ludwig e as Irmãstem pouco mais de uma hora. "Ficou conciso, essencial", dizBlat.Paroni não viu a montagem gaúcha, mas está certo de quehá diferenças, não propriamente de qualidade, mas de linguagem.Alabarse, assumidamente, optou por centrar sua concepção em doiseixos: embate de idéias e atores. Paroni aposta na linguagemespecificamente teatral e construiu uma escritura cênica queganha no espetáculo a mesma dimensão do confronto de idéias."Achei que não deveria montar de forma clássica um textoiconoclasta", diz Paroni. "Não há nessa peça personagens econflitos à maneira clássica. A tensão se instaura e se exaureatravés das palavras e o que tentei fazer foi ampliar essadimensão para a platéia."A concepção do diretor fica clara já no ponto de partidado espetáculo, quando entram em cena três atores alemães -Ritter, Dene e Voss -, que têm como tarefa a interpretação dotexto. Além de Blat, atuam no espetáculo Giovanna De Toni e LuluPavarin. "O texto traz uma discussão sobre mitificação da artemuito próxima do pensamento moderno", observa Paroni. Se a arteé tema, o encenador aproveita a "gramática" teatral paraconstruir sua escritura. No cenário, há desde o telão pintado doséculo 19 até recursos contemporâneos. "Há uma série dejustaposições na cenografia."Não é diferente a gama de recursos dos intérpretes."Trabalho desde aquilo que, numa escala de zero a dez, chamo de´grau zero´ de interpretação - a confissão - até a máscara, ograu dez dessa mesma escala. Não chego a utilizar a máscara comoobjeto, mas como interpretação." Nada mais fascinante quando, no teatro, uma boa história alia-se a um bom elenco e a uma narrativa original. É o que promete "Ludwig e as Irmãs". É torcer para que essa promessase cumpra.Ludwig e as Irmãs - Ritter, Dene, Voss. Drama. DeThomas Bernhard. Direção Maurício Paroni de Castro. Duração:1h30. Sexta e sábado., às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 1200. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1. 000, tel. 3277-3611.

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