Wisnik revê paradoxos da criação de Chopin

Inovações do compositor foram tema de conversa na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2010 | 00h00

Wisnik. Exemplos musicais foram oferecidos ao piano e em gravações de grandes artistas como Nelson Freire, Martha Argerich e Maurizio Pollini

 Desmanchar para reconstruir. Foi essa a tônica da palestra que o músico e professor José Miguel Wisnik deu na noite de quarta-feira sobre a obra de Frederic Chopin, parte do projeto Música na Cabeça, parceria da Osesp com o Estadão. Partindo do paradoxo entre a popularidade e as inovações estéticas da música do compositor, ele misturou biografia, análise musical e histórica e causos saborosos na conversa com o público que lotou o palco e o coro da Sala São Paulo.

"Chopin me acompanha desde pequeno, mas nunca tive a chance de falar sobre sua música. É um sonho que estou realizado", disse Wisnik, que começou a palestra brincando sobre a pronúncia do nome do compositor: Chopan, como diriam os franceses, ou Chopen, como diriam os poloneses? Há aí uma ambivalência que diz muito sobre o autor. "Apesar de ter passado seu principal período criativo na França, ele se tornou símbolo de uma nação espiritual em um momento em que o país estava ocupado. Chopin quintessenciou uma memória da cultura polonesa."

Wisnik passou, então, a tratar da oposição entre o autor popular e o autor de vanguarda estética. Relembrou Otto Maria Carpeaux, para quem Chopin conseguia atingir o grande público ao mesmo tempo em que tinha a capacidade de construir texturas musicais que fazem dele um autor esotérico - termo que, aqui, significa a possibilidade de sua música de pedir escuta afinada que revela diversas dimensões em uma única obra. O mesmo termo, curiosamente, aparece em Charles Rosen, musicólogo americano autor do monumental A Geração Romântica - e a mesma ideia surge em relatos de Franz Liszt, contemporâneo de Chopin, que chamava a atenção, ao criticar "ouvidos frívolos" de sua época, para a riqueza do universo sonoro criado pelo autor.

Por um lado, Chopin ficou conhecido como um compositor de salão, autor de "peças para cadernos de moças"; por outro, no entanto, em especial na Alemanha e na Inglaterra, diz Wisnik, foi tido como um grande inovador, criador de peças perturbadoras. O que o professor mostra é que, se convivem na obra, esses dois elementos também dizem muito a respeito do tipo de escuta do público.

Com essa oposição colocada, Wisnik passou então a exemplos musicais. Ao piano - e em gravações de artistas como Nelson Freire, Martha Argerich ou Maurizio Pollini -, ele ofereceu exemplos da valsas, estudos e prelúdios. As inovações técnicas, assim como o diálogo que Chopin manteve com a tradição de autores como Bach, se revelaram ao público de maneira bastante eficiente. Ele mostrou, por exemplo, como a construção de texturas específicas leva a um todo composto de várias ideias musicais que, no entanto, não se explicam individualmente. Mais do que isso, dedicou-se a demonstrar a ideia central da noite. "A música de Chopin não se dá pela sucessão de notas apenas mas, sim, por uma espécie de nebulosa ondulatória, que descortina as possibilidades das ondas sonoras. Vários acontecimentos musicais se dão, se somam, numa perspectiva de multiplicidade. O caráter esotérico, arrebatador, vem de estruturas muito complexas, que envolvem menos a preocupação com a pulsação e colocam ênfase nos resultados de melodias que se constroem a partir das formas das ondas sonoras e não das notas", afirma. No final, o professor ainda lembrou a influência de Chopin na música brasileira, tocando delicada - e divertida - versão de Insensatez, de Tom Jobim, à lá Chopin.

 ONDAS SONORAS

JOSÉ MIGUEL WISNIK

MÚSICO E PROFESSOR

"A música de Chopin se dá por uma espécie de nebulosa ondulatória, que descortina possibilidades. Vários momentos musicais se somam numa perspectiva de multiplicidade."

MÚSICA NA CABEÇA

25/8 - 19h30

O filósofo da Universidade de São Paulo faz a palestra Debussy e o Nascimento da Modernidade,

1º/10 - 19 h

O compositor Osvaldo Golijov, que terá obras apresentadas pela Sinfônica do Estado, conversa com o público.

28/10 - 19 h

Conversa com o violinista e maestro francês Yan Pascal Tortelier, regente titular da Osesp desde o ano passado.

Inscrições

A entrada para as palestras e os encontros é franca. Basta se inscrever pelo site da orquestra: www.osesp.art.br.

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