Wilde

‘Nunca entendi o sentido do termo moralidade, a não ser como um meio de opressão’

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2018 | 02h00

Oscar Wilde escreveu algumas das frases mais memoráveis e citáveis da língua inglesa para seus personagens, mas hoje seu personagem mais lembrado é ele mesmo. Vários autores modernos o colocaram no palco com falas novas. O mais surpreendente desses é Terry Eagleton, mais conhecido como crítico literário e pensador marxista. Na sua peça Saint Oscar, sobre o julgamento que condenou Wilde à prisão, Eagleton põe vários solilóquios wildianos na boca do escritor. A começar por sua apresentação à plateia: “Me chamaram Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde. Outros ganham nomes, eu ganhei uma sentença inteira. Nasci com uma sentença sobre a minha cabeça”.

Depois de explicar sua gordura dizendo que come para compensar a fome na Irlanda, Wilde diz: “Sempre julguem pelas aparências, que são mais confiáveis do que a realidade. Os ingleses acham que isso é hipocrisia. Vocês se surpreendem que eles desconfiem de aparências, depois do que fizeram à metade do mundo? Eles fogem disso para um lugar interior chamado ‘verdade’. Um lugar profundo – como uma cloaca. Enquanto eu sou superficial, profundamente superficial. Não há nada à flor da pele na minha superficialidade”. E sobre a sua mãe: “Uma mulher admirável. Talvez seja o que mais me desagrade nela”. 

O “Wilde” de Eagleton também diz: 

“Tento não ter nenhum tipo de ressentimento social, mas não consigo evitar a inveja dos privilégios dos pobres. Eles estão livres da indigestão e do pânico na escolha do que vestir e não têm tempo para especulações metafísicas inúteis. É a sua naturalidade que eu invejo. Não, isso não é verdade. Detesto a Natureza. Ela não tem o dom do improviso: está sempre tediosamente se repetindo. Enquanto eu nunca faço a mesma coisa duas vezes, e é isso que me torna tão fascinante. Toda a minha vida tem sido uma longa prática antinatural. Não sou previsível como uma couve-flor”.

E: “É curioso como as pessoas ainda desaprovam a roupa, depois de tantos milênios. Consideram a nudez mais autêntica. Não posso imaginar um pensamento mais pervertido. A nudez sempre me pareceu tão artificial. Aparecer no tribunal totalmente nu – ah, essa seria a pose extrema. Tirem a minha roupa e a minha alma vai junto”.

E: “Sou um igualitário: para mim todas as classes são vulgares”.

E: “Sou socialista porque sou individualista. Como pode alguém ser um indivíduo neste esgoto de sociedade? Na minha santa devoção ao meu próprio ego prefiguro uma Nova Jerusalém, em que todos poderão ser, puramente, eles mesmos”.

E, falando no tribunal que o condenaria: “Nunca entendi o sentido do termo moralidade, a não ser como um meio de opressão. Sou, em suma, um decadente. Mas temo que a saúde de vocês possa ser mais doentia do que a minha decadência. Melhor sensacionalista do que imperialista. Temo pela saúde moral de uma nação inteira obcecada em determinar qual é o buraco certo para penetrar. Vocês subjugam raças inteiras, condenam a massa da sua própria população à miséria e ao desespero, e só conseguem pensar em que órgão sexual deve entrar aonde”.

E: “Vocês sustentam que homem é homem e mulher é mulher. Eu sustento que nada é simplesmente o que é, e que o ponto em que isso acontece se chama morte. Portanto, exijo que meus defensores sejam metafísicos em vez de advogados e que o júri seja composto pelos meus pares – poetas, pervertidos, vagabundos e gênios”. 

 

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