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What’s wrong with London?

Não há nada de errado com Londres, pelo menos nas 60 primeiras vezes...

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

01 de dezembro de 2019 | 02h00

Já encontrei essa frase em várias fontes. No sentido que utilizarei, ouvi da mãe de uma amiga. A senhora comentava, admirada, como as pessoas descreviam aventuras no Butão ou no deserto da Namíbia. A sábia mulher, com forte sotaque judaico-polonês, dizia: “What’s wrong with London”? O que estaria errado com a capital inglesa para que hordas de turistas se aventurassem por lugares inóspitos? Quando foi que Paris, Nova York, Londres e Milão deram lugar a Papua-Nova Guiné ou a Islândia? 

Existe um sentimento que, por falta de melhor termo, atribuirei a meu amigo Zeca Camargo. Batizarei de “síndrome ZC”: tendo viajado muito e por lugares variados, apresentando dificuldades em identificar, assim que desperta, em qual latitude ele se encontra, certamente o renomado apresentador busca novos destinos. Ainda que ame Paris, Zeca precisa das igrejas enterradas da Etiópia. O mal que o aflige, um pouco similar ao meu, é o excesso e, talvez, a repetição. Respondendo à experiente senhora do parágrafo anterior, não há nada de errado com Londres, pelo menos nas 60 primeiras vezes...

Vamos pensar de forma mais ampla e com metáforas. Jovens amantes são fascinados pela infinita imaginação do Kama Sutra. Há posições que só podem ser alcançadas depois de livre-docência em “hard Pilates”. Tenho certeza de que, no albor dos hormônios, o exótico ocupe o cérebro como sedutor. Depois, com o passar do tempo que amolece certas coisas e endurece outras, passamos a considerar que o sexo mais extraordinário é na cama, a dois, com duração moderada. Talvez ocorra o mesmo em turismo... Isso explicaria outra coisa: tudo se torna Londres com o tempo. Em um momento da minha vida, fui 3 vezes (em 18 meses) a Mianmar. Quando a mulher do hotel de Bagan me chamou pelo nome, percebi que estava exagerando. O balão em Bagan havia virado o táxi preto da City. Será o ciclo de todo tédio? Imagino três etapas: a) “Londres é maravilhosa”; b) “quero passar uma semana no deserto de Gobi”; c) “Londres é legal de novo”... 

Metrópoles sempre exibirão atrações novas. Uma vida não basta para museus como o Louvre e o Britânico. Restaurantes germinam como grama após a chuva nas urbes citadas. Espetáculos teatrais surgem de todo lado. Sempre há algo para fazer lá. Os hotéis podem ser simples ou luxuosos, porém a chance de problema é menor do que no coração de uma estepe erma. Há risco de problemas em Nova York ou no Vladivostok, mas, creia-me, costuma ser melhor discutir seus problemas na recepção do hotel em inglês. Sim, fala-se em inglês no mundo todo, porém, o de Londres ou Nova York você pode entender. Isso ajuda muito. 

É possível supor que a última etapa seja parar de precisar viajar. Na A Arte de Viajar, o filósofo Alain de Botton conta sobre o nobre francês que, tendo decidido sair da sua zona de conforto, acaba sendo acometido de escrúpulos e angústias e, arrependido, descobre viver melhor em casa, lendo e estando junto ao que ele amava e conhecia. Trata-se do pitoresco duque de Esseintes, personagem do romance de Huysmans. Acho que essas são as pessoas mais felizes. Meu pai preferia ler Salústio em latim a tomar um avião. O mundo exterior não o seduzia. 

Lembro-me de um episódio antigo, quando melenas ainda adornavam minha fronte. Eu era jovem e fazia a travessia dos lagos andinos pela primeira vez. Era um trecho de ônibus e uma forte nevasca começou sobre os pinheirais circunstantes. O ônibus parou e um bando de deslumbrados jovens (entre eles, eu) saiu para fotografar (com máquinas, então). Com a recente neve ainda não acumulada, tentávamos fazer bolas de neve, gesto mais patético do que lúdico. Fazíamos registros entusiasmados. Um casal, mais experiente (ou mais blasé), ficou no ônibus, um pouco irritado pela parada. Achei-os chatos naquela ocasião. Hoje, provavelmente, eu também ficaria sentado, longe daquela brincadeira. Depois de décadas em invernos variados, sei que neve é como certos filmes de arte: é melhor debater depois do que estar lá... Os alvos flocos viram água no seu casaco e o cheiro de cachorro molhado é inevitável. O frio entra em tudo e machuca. O chicote do vento pode transformar sua orelha em objeto azulado e duro. A neve observada de um vidro junto a uma lareira é algo encantador. Rigor do inverno vivido em contato total é desagradável. Observo a foto do rapaz feliz com os braços abertos para o céu e vendo o espetáculo. Onde ele estará hoje? É o mesmo que escreve agora, porém, ele não existe mais. 

Viajar talvez funcione como certos vícios intoxicantes. Você tenta de novo para reproduzir a inatingível sensação da primeira vez, antes de todas as síndromes. Então, não há nada de errado com Londres, apenas conosco. Culpamos o espelho; o problema está na imagem... que gera o reflexo. E vamos atrás de doses mais elevadas de opioides excêntricos? As viagens são marcos que nos lembram do que deixamos de ser. A propósito: onde guardei meu passaporte? Logo após o Natal, irei de novo para Londres. Não sei muito mais, mas minha experiência é de que a tristeza na National Gallery incomoda menos do que em outros lugares. “What’s wrong with me?” Boa semana para todos.

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