Western em dobro

Clássicos de Henry King e Fritz Lang saem na mesma embalagem

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h11

Dois em um - você não precisa ser fã de westerns para perceber que se trata de um excelente negócio. A Classicline lança, na sua coleção Cinema em Dobro, dois bangue-bangues de grandes diretores. São obras que se completam - Jesse James, de Henry King, e A Volta de Frank James, de Fritz Lang, de 1939 e 40. O primeiro conta a história do célebre pistoleiro e de seu irmão. O segundo, após a morte de Jesse, mostra Frank de volta, e armado para a vingança.

Henry King tinha tanto prestígio em Hollywood que era chamado de diretor dos diretores. Ele começou no período silencioso e atravessou décadas - até o começo dos anos 1960 - fazendo filmes sem se ligar a gêneros e sem ter mesmo consciência de possuir um estilo. Era um contador de histórias, que tratou de grandes homens e personagens obscuros, buscando em todos a mesma transcendência. Para o rei Henry, mesmo o menor dos homens pode ter um destino excepcional.

Houve um tempo em que o western era considerado o gênero por excelência do cinema norte-americano. Ele certamente ajudou a nação a forjar uma identidade, é verdade que muitas vezes - quase sempre? - idealizando a conquista do Oeste. Os irmãos James pertencem a uma galeria de celerados que aterrorizaram a nova fronteira com a força das armas, mas Jesse e o irmão nem sempre foram bandoleiros. Eram agricultores, colhidos nos conflitos da Guerra Civil. Houve muitas biografias de Jesse, o mais famoso, até o recente Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, com Brad Pitt.

Em 1957, Nicholas Ray - diretor de Amarga Esperança, leia ao lado -, fez Quem Matou Jesse James?, com Robert Wagner. Sua versão foi cortada pelo estúdio, que achou o tratamento dado ao personagem benevolente demais. Segundo Ray, ele teria sido vítima da violência e das injustiças sociais, provocadas pela Guerra Civil Americana e só agiu daquele jeito movido pelas circunstâncias.

Quase 20 anos, a versão de Henry King já batia nessa tecla, mostrando a ruptura da família de agricultores - a mãe, Jane Darwel, foi a célebre Ma Joad de Vinhas da Ira, de John Ford, em 1940 - e as perseguições que levaram os irmãos James à radicalização. Jesse era considerado uma das melhores miras do Oeste. Isso somente acirrou as perseguições que lhe foram feitas.

Já na época Hollywood podia filmar a violência contra humanos, mas uma cena de Jesse James - o cavalo cai do penhasco e morre - teve tanta repercussão que forçou a American Humane Association a criar um certificado garantindo que os animais não podiam ser feridos na realização de filmes. O sucesso foi tão grande - a presença do dândi Tyrone Power e a solidez de Henry Fonda ajudaram bastante -, que o estúdio providenciou a sequência.

Desta vez, em A Volta de Frank James, a direção foi entregue ao expressionista Fritz Lang, que se estabelecera em Hollywood, fugindo do nazismo. Embora a obra hollywoodiana de Lang some mais da metade de seus filmes, os críticos sempre a negligenciaram, em favor da primeira fase alemã.

Mas Lang saiu-se muito bem em Hollywood, encontrando no cinema de ação, westerns e policiais, a representação das forças do destino que sempre perseguiram seus heróis. Frank James, Henry Fonda, mata o covarde Gerald Ford e vai a julgamento. Lembrança do julgamento final de M, o Vampiro de Dusseldorf? As cenas do tribunal são as melhores, com seu júri parcial. Foi o primeiro filme de Gene Tierney e a futura Laura, da obra-prima noir de Otto Preminger, é um assombro.

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