Donata Wenders/Reuters
Donata Wenders/Reuters

Wenders no passo de Pina Bausch

Documentário do cineasta alemão sobre a coreógrafa encanta o público e surge como o primeiro 3D de arte

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2011 | 00h00

Nove entre dez jornalistas são capazes de jurar que, a despeito das excepcionais qualidades de filmes como o iraniano Nader and Nisin, A Separation, de Asghar Farhadi, e o húngaro O Cavalo de Turim, de Bela Tárr, o grande acontecimento artístico da Berlinale de 2011, encerrada ontem, foi o documentário de Wim Wenders sobre Pina Bausch. Até publicações ligadas à indústria, como Hollywood Reporter e Variety, definiram Pina como o primeiro 3D de arte.

Foi o filme que Wim Wenders quis fazer por mais de 20 anos. "Foi o filme que quis fazer toda minha vida", ele explica. Amigo da coreógrafa Pina Bausch, ele também era profundo admirador de seu trabalho. Vivia lhe prometendo um filme, mas não encontrava a forma nem o instrumento. "A fisicalidade do trabalho de Pina é tão extraordinária que não faria sentido produzir um filme que não colocasse o espectador dentro de sua dança." Depois de muito pensar, e buscar, Wenders percebeu que o 3D era o instrumento que lhe faltava.

Quando Avatar, de James Cameron, estreou, ele estava na primeira sessão para perceber se a terceira dimensão era mesmo o que necessitava. "O filme é maravilhoso quando as coisas saem da tela. Tudo o que fica de fundo se apequena e, na verdade, é bem banal", ele analisa.

De posse do 3D, Wenders começou a trabalhar para valer. A morte da artista foi um baque. "Cheguei a pensar em desistir, mas aí vi que deveria simplesmente mudar algumas coisas. O essencial, para mim, sempre foi documentar e homenagear o trabalho de Pina, não fazer da minha amiga um totem. Com os integrantes da sua companhia, o Danztheater, chegamos à conclusão de que a melhor maneira de honrar Pina era seguindo em frente." Daí o subtítulo - Dance, Dance or We Are Lost (Dancemos, Dancemos ou Estaremos Perdidos).

O que havia de tão importante no trabalho de Pina para que Wenders considerasse absolutamente fundamental a sua documentação? "Ela revolucionou a dança, tirou-a da academia, fez dela uma experiência vital." No filme, vários bailarinos opinam. Os testemunhos batem todos na mesma tecla. "Pina era uma grande provocadora. Ela exortava as pessoas a irem ao limite, mas não pela força, dando ordens. Ela queria que seus bailarinos, os melhores do mundo, sentissem essa necessidade de buscar, de tentar." Às vezes, pelos depoimentos, tem-se a impressão de que Pina era uma psicanalista que sabia ver o fundo das pessoas, através delas.

"Como cineasta, consigo entender isso. O cinema também trabalha muito com sensações físicas. E eu também busco o limite. O desafio é sempre estimular o ator a ir ao extremo. O que Pina me ensinou, nesses anos de convívio, é que só podemos exigir dos outros aquilo que também estamos dispostas a dar. Se nós, ela, eu, não formos ao nosso limite, como exigir que os outros o façam?"

Desafio. Foi o maior desafio de Pina, maior do que a tecnologia. "Acho que vamos ter agora problemas na exibição. O ideal é que o filme seja visto só em 3D, mas há uma distinção entre o circuito comercial e o de arte. O mercado terá de absorver Pina."

Durante a entrevista para um grupo de jornalistas de todo o mundo, o repórter senta-se à direita de Wenders. Ele o reconhece do encontro em São Paulo, quando montava a exposição de suas fotos no Masp, durante a Mostra de 2010. "São Paulo é uma cidade muito dinâmica e o público é muito exigente", ele diz.

Wenders acompanhou a distância a produção do álbum de suas fotos pela Imprensa Oficial. Ele viu o livro. "Ficou muito bonito." Vai continuar fotografando? "Não viajo sem minha câmera. É a extensão dos meus olhos."

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