Wanderlea ''Os pais ficavam horrorizados''

"Entre tantas situações inusitadas que vivemos juntos, o que também muito nos mobilizou foi a forma estética de nossas performances.

, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h00

Não nos bastava inovar um estilo musical, era necessário uma atitude, um gestual, um vestuário próprio, usado a princípio apenas nos shows e, logo em seguida, no nosso cotidiano, causando um enorme impacto e conseguindo uma adesão máxima de toda a juventude de nossa geração.

Todo jovem queria ser igual ao Roberto e ao Erasmo e toda mulher queria ser Wanderléa.

A princípio, os pais ficaram horrorizados com seus filhos deixando de usar o corte de cabelo "príncipe Danilo", o que correspondia a uma cabeça raspada com apenas um topetinho grudado de Gumex na frente, para deixar crescer longas cabeleiras iguais às do Roberto e do Erasmo. O engraçado é que os dois sempre requisitavam minhas meias de nylon para usar como touca, virando-as de um lado para o outro a fim de domesticar seus cachos.

As roupas eram muito coloridas, contrastando com os clássicos tons neutros usados anteriormente pelos rapazes. Calças boca de sino coladas e Saint-Tropez mostrando o cofrinho num movimento inadequado, botinhas de salto carrapeta, jaquetas em cima de camisas de seda com golas e punhos cheios de babados e tudo acrescido de cinturões, correntes, anéis, chapéus, era uma festa.

Excluí as antigas roupas íntimas como anáguas, combinações, vestidos na altura das canelas, lacinhos cor-de-rosa... Eu inovava com minissaias, botas de cano alto, capas, longas cabeleiras soltas sem laquê, calças compridas igualmente justas no dia a dia e roupas pretas de couro com ou sem tachas, cinturões, ombreiras, chapéus, maquiagem, cílios postiços e, para desespero das mães, muita perna de fora, coreografias dançantes e audaciosas que eu inventava, tudo em frente do espelho.

Era uma motivação criar novas tendências para apresentar no programa Jovem Guarda, que ia ao ar todo domingo na maior passarela "SPFW" que esse Brasil já teve, com adesão maciça da população, que alavancou um mercado jovem inexistente em nosso país. Discos, roupas, objetos, brinquedos, tudo era vendido com a nossa cara com um marketing criado por Magaldi-Maia e Prosperi, fazendo assim prosperar em vendas as marcas Calhambeque, Ternurinha e Tremendão.

Não existia internet e um hit importado demorava para chegar aqui. Nós éramos os representantes da sonoridade musical moderna com a introdução dos elementos eletrônicos, o que muito incomodou os puristas que até passeata fizeram contra nós. Também trouxemos uma contribuição ao mundo da moda com as nossas criações e adaptações pessoais que faziam toda a diferença. Dificilmente acontecerá algo parecido com o que fizemos, as tendências, costumes e influências estão hoje ao alcance das mãos, nos conectando a qualquer esboço de informação e tudo se torna velho e cansativo com muita rapidez.

Mas penso que, além das novidades que projetamos com nosso trabalho, o fator humano é o que de mais marcante plasmou nossa passagem no cenário brasileiro, nas emoções que causamos no coração dessas muitas gerações que tocamos com nossas campanhas assistenciais do "Quero Que Você me Aqueça Nesse Inverno", arrecadando montanhas de agasalhos para os pobres e brinquedos no Natal das crianças numa participação de toda a nossa sociedade. Nunca a população havia sido estimulada a doar publicamente aos mais carentes e, a partir do sucesso do nosso chamado, as campanhas sociais coletivas hoje fazem parte do cotidiano de nossas vidas."

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