Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Waltercio Caldas inaugura mostra na Casa França-Brasil

O artista se ocupa de cores, luzes e sombras na exposição 'Cromáticas' em cartaz no Rio

ROBERTA PENNAFORT - O Estado de S.Paulo,

15 de agosto de 2012 | 03h08

RIO - A cor começou a entrar no trabalho de Waltercio Caldas "pelo buraco da fechadura", constata o próprio artista. No início de sua trajetória, na virada para os anos 70, as cores eram as dos materiais utilizados - a do metal, a do papel, a do vidro. Na exposição Cromáticas, em cartaz a partir de hoje na Casa França Brasil, no Rio, é e não é assim.

Em madeira pintada de vermelho, amarelo e azul foscos, as três obras que ocupam o principal espaço expositivo da construção centenária, que receberam os nomes de Primeiro, Segundo e Terceiro Detalhe, são módulos de seis por sete metros que impressionam pela solidez das cores. Elas surgem como dados de volume, da tridimensionalidade que é sempre uma questão crucial para Waltercio.

O revestimento provoca a tensão entre cor e volume, ao contrário do que aconteceria se tivessem ficado os tons originais da madeira. "Não sei se a cor é que tem volume, ou se o volume é que tem cor", avalia, diante dos três objetos (de grandes dimensões, mas ainda objetos, e não ambientes, ressalta). Antes de chegar a eles, o espectador se depara com uma "frase-objeto": "Aqui, apenas os fatos são inventados".

Cada um tem elementos (esferas, retângulos, hastes) que desafiam o olhar e introduzem tensões: ordem/desordem, transparência/opacidade, perto/longe. "Estou tratando de espaço, circunstância, transparência, precipitação. O tempo todo o espectador é colocado aqui na situação de estar vendo a linha do horizonte. Cada objeto propõe essa vertiginosidade. Arte, para mim, é isso: é essa espécie de abismo que te impulsiona, que te leva a enfrentar o desconhecido."

As cores ele testou em maquetes. Seguiram-se testes de luz: Waltercio não queria sombras. A iluminação natural que entra pela claraboia foi filtrada; as lâmpadas artificiais foram desviadas.

Nas salas adjacentes, estão outros dois trabalhos que também relacionam cor e luz. Filme Rápido, desdobramento de um outro mostrado em Salvador dois anos atrás, é composto de sete espelhos negros nos quais se refletem imagens de livros e taças de vidro estilhaçadas, ao som de um trem em deslocamento. Conforme se anda, as imagens também se movimentam.

Na sala em frente, nova versão de Superfície Internacional, exibida na Espanha em 2008:21 caixas brancas e azuis, dispostas em sete prateleiras, distam mais ou menos umas das outras, o que lhes confere um "ritmo espacial". "É a poética de lugares que está em toda a exposição. É como se cada objeto tivesse fundado a condição do lugar onde ele se encontra: cada caixa está em seu próprio lugar."

Waltercio recentemente lançou dois "livros-arte" que falam desses e outros assuntos de um vocabulário artístico desenvolvido há quatro décadas: Cronometria e É = (o espelho) um véu. Mês que vem, inaugura O Ar Mais Próximo e Outras Matérias, mostra de caráter retrospectivo na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, preparada em conjunto com o Blanton Museum of Art da Universidade do Texas. São obras desde os anos 60.

As reflexões sobre a própria produção não cessam. Prescindem de efemérides - em 2013, fará 40 anos a sua primeira individual, no Museu de Arte Moderna do Rio, com 21 desenhos e 13 objetos-caixas. Foi quando a crítica passou a observá-lo. "O que lhe interessa é a produção de um clic que provoque no espectador um momento de desorientação psíquica", escreveu Ronaldo Brito, para quem Waltercio já propunha que a arte não era para ser só olhada, mas "para se pensar a respeito".

Análise de hoje: "Meu trabalho é assim: eu fico sempre tentando entender quais são minhas secretas intenções", brinca Waltercio. "Nunca está pronto. A forma como se desenvolve no espaço e no tempo é fundamental como questão do próprio trabalho."

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