Walter Firmo: 50 anos de fotografia com a força do acaso

Artista que comemora neste mês 70 anos e 50 de fotografia fala ao Estado sobre a força do instantâneo no seu ofício e relembra os principais momentos da carreira

Agencia Estado

21 de junho de 2007 | 12h14

A casualidade na vida de um fotógrafoé tão importante quanto a própria câmera. Por isso, Walter Firmose arrepende sempre que deixa de carregá-la. Para ele, o acasofoi determinante a ponto de juntar, em um mesmo dia, duascomemorações: seu nascimento e o início de uma gloriosa carreira. O duplo aniversário foi comemorado no dia 1.º, quando ofotógrafo carioca completou 70 anos de idade e 50 de fotografia.Nesta data, ele começou como repórter fotográfico no extintojornal carioca Última Hora, atividade que abandonou há 20 anos. Mas o presente para seus admiradores chega apenas naterça-feira da semana que vem, dia 26, com a inauguração de umadas várias retrospectivas programadas para este ano, naexposição na galeria LGC Arte Contemporânea, no centro do Rio. Sobre o seu método de trabalho, Firmo garante nunca tersido um escravo da casualidade. "Nunca gostei do flagra peloflagra, é preciso ter um algo a mais que me faça roubar umaimagem", conta ele, admitindo, em seguida, uma ponta dearrependimento por uma foto que deixou de roubar: "Perdi umafoto da Brigitte Bardot. Tinha deixado a câmera no carro e,quando vi aquela loira com o namorado, na época em que toda aimprensa andava atrás dela, não quis dar uma de paparazzo, coisaque abomino. Mas depois me arrependi." Se hoje ele se tornou um "devoto da composição", comocostuma dizer, também soube aproveitar quando esteve no lugar ena hora certa. Com dois anos de carreira fez uma foto deGarrincha nu, no vestiário do Maracanã, imagem que redescobriuem seu arquivo anos depois: "Naquela época era comum osfotógrafos entrarem no vestiário. Depois ele passou a ser ummito sexual e descobri que eu tinha essa foto."Mostra no Afro Brasil Imagens inéditas encontradas em seu arquivo, aliás,costumam ser freqüentes. No ano passado, foi publicada aprimeira retrospectiva de sua carreira, o livro FirmoFotografia (Ed. Bem-Te-Vi Produções Literárias, 300 págs., R$200), como parte das homenagens. "Fotografo muito e nunca tenhotempo de organizar e publicar minhas coisas. Quando morrer, vãoaparecer uns 10 livros sobre as várias direções do meu trabalho" Diz. Entre as comemorações do duplo aniversário, a principaldelas será uma grande retrospectiva no Museu de Arte Moderna, noRio, em dezembro. Em São Paulo, Emanoel Araújo prepara parasetembro uma exposição no Museu Afro Brasil com 60 imagens empreto-e-branco inéditas e um livro de 280 páginas, Imagens daTerra do Povo Brasileiro, que será lançado pelo museu emparceria com a Imprensa Oficial. Hoje, as fotografias de Walter Firmo mais lembradas sãoos retratos dos sambistas, em parte pela importância desseregistro histórico - resgatados em 2003 pelo galerista MarioCohen na exposição Um Passeio pela Nobreza - mas,principalmente, pelas construções elaboradas das imagens. "Fuium dos pioneiros nesse tipo de fotografia no Brasil. Eu usava aimaginação como um diretor de cinema", conta. PixinguinhaO retrato doPixinguinha é o exemplo máximo dessa idéia - apesar de não estarentre as preferidas de Firmo: "Ela mostra uma parte da minhavida em que tive contato com pessoas da música, não é mais o quefaço hoje. Fiquei estigmatizado como um fotógrafo colorista e damúsica popular. Isso é bobagem, eles não conhecem a metralhadoragiratória de um geminiano." Outro exemplo de composição são as clássicas imagensfeitas para a revista Realidade, em que Firmo fez a mesma fotode uma família na Amazônia nos períodos de cheia e vazante."Essaé uma das minhas favoritas na questão da ‘engenharia’." Há 15 anos, o fotógrafo dedica a maior parte do seutempo a aulas e workshops, incluindo em São Paulo, todas assegundas-feiras na Galeria Ímã. "Eu convivo com pessoas que meidolatram e querem aprender alguma coisa comigo. Já passaramumas 2 mil por mim nesses 15 anos, uns 40 viraram fotógrafos."

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