Walmor recomeça aos 82

O grande ator festeja seu aniversário com um novo filme e explica o que é atraente no seu militar de Cara ou Coroa

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h11

Walmor Chagas já havia comemorado seu aniversário no palco, mas nunca, como na terça-feira passada, numa sala de cinema. Foi na pré-estreia para convidados de Cara ou Coroa, o novo longa de Ugo Giorgetti, sobre um grupo de teatro durante a ditadura militar. "Fizemos o filme em 2010 e nem me passava pela cabeça que ele chegaria ao público no dia dos meus 82 anos. Aliás, não imaginava que viveria tanto tempo", disse o ator numa entrevista realizada na manhã seguinte, no apartamento da filha, na Vila Mariana. "Sempre achei que ia morrer, sei lá, com 33 anos."

De onde Walmor tirou essa ideia romanticamente esdrúxula? "Isso foi coisa de juventude. Muito cedo decretei para mim mesmo que Deus não existia e, no meu inconsciente, o fato de renegar a religião teria de ser punido. Comecei a achar que ia morrer com a idade de Cristo." O octogenário Walmor volta e meia aterrissa em São Paulo - e acampa na Vila Mariana -, mas gosta mesmo é de viver em Guaratinguetá, bem longe da agitação urbana. "Vivo feliz, sozinho, bem bicho do mato. Estou ditando minhas memórias, vejo novelas, filmes."

Avenida Brasil, ele não perde. "Carminha é uma grande personagem e Adriana Esteves está muito bem. Nina é mais monocórdica, o que prejudica Débora Fallabela." Walmor dita suas memórias porque admite que anda com problemas de visão. "Para ver TV, tenho de grudar a cara no aparelho. Ouço sua voz, vejo uma mancha, mas não consigo discernir as feições. Mas o médico já me garantiu que cego não vou ficar." Anda com problemas de açúcar no sangue. "O endócrino disse que tudo o que vem da terra tem açúcar e não é bom para mim. Faço uma dieta leve. Adorava cenoura, beterraba, mas a cozinheira cortou. Essa coisa de ficar velho é uma m... Só pode ser louco quem acha que é a melhor idade."

O discurso pode induzir o leitor a pensar que Walmor Chagas virou um velho ranzinza. Nada disso - estrear um novo filme com essa idade é motivo de alegria. Começar de novo. Foi o universo do teatro que o levou a querer fazer Cara ou Coroa? "Foi o roteiro, que achei muito bom." O filme é sobre uma companhia de teatro e o romance do dramaturgo, irmão do diretor, com a filha de um general. A garota, por causa do namorado, esconde dois subversivos no porão. Há controvérsia, no final, se o militar sabia ou não. "Essa ambiguidade era o que havia de mais atraente no personagem, mas não sei se consegui passar para o público."

Autocrítica. O excesso de zelo é próprio do grande ator. "Havia visto o filme em DVD, ontem (terça-feira) foi a primeira vez na tela. Nunca gosto de me ver. Para mim, a melhor interpretação é a de Otávio Augusto. Que ator maravilhoso!" Otávio Augusto faz o irmão do dramaturgo, um motorista de táxi reacionário que parece encarnar a alienação do brasileiro médio em 1971, nos duros anos do regime militar, quando se passa a história. Há um narrador que, no começo e no fim, reflete sobre aquele período e conclui: apesar das dificuldades, com o retrospecto ele tem a sensação de nunca haver sido mais feliz.

Em 1971, a lendária mulher de Walmor, Cacilda Becker, já havia morrido. Ela havia sido a encarnação da resistência da classe teatral nos anos de chumbo. Cacilda era guerreira. "Ao contrário de mim, ela era muito religiosa. Carregava um complexo de culpa por transgredir, mas eu não queria saber e a empurrava." Foram anos intensos e, na época, Walmor já exibia a cabeleira branca que virou sua marca - seu marketing. "Fiquei grisalho muito novo, mas tenho a impressão de que meu cabelo ficou branco numa semana." Foi no começo dos anos 1960, durante a travessia do Atlântico. "Havia formado um grupo para se apresentar em Portugal, cinco peças em menos de um mês. Todo mundo recebendo em dólar. Eu nem dormia pensando em como ia conseguir pagar toda aquela gente."

Teatro dava dinheiro, ele lembra, e o dinheiro sempre foi importante para o filho do guarda-livros (seu pai). "Ele me ensinou a não dever a ninguém. Nunca passei um cheque sem fundos" - e ri, citando atores e atrizes empresários(as) que nunca tiveram seus escrúpulos. Walmor virou um mito da representação no País. Teatro, cinema e TV. Ele investiu o que ganhou no teatro e na TV em imóveis, mas vendeu cinco apartamentos para construir uma sala.

Walmor Chagas pode ter desistido de Deus, mas o teatro virou sua religião? "Pode-se dizer que sim. Ele sempre foi necessário em minha vida. Tive alguns momentos em que juntei as mãos para rezar a Deus. Mas achei que era cinismo, se não acreditava nele. Tento não fazer mal a ninguém. Por isso vivo meio recluso. Não aguento a hipocrisia nem a competição em que o mundo se transformou."

Narcisismo. Quando Walmor descobriu que era ator? "Quando subi ao palco e recebi meu primeiro aplauso, lá em Porto Alegre (como o mensageiro da Antígona de Jean Anouilh, em 1948), senti que aquilo era o que queria. Me assumi como exibicionista, não um exibicionista sexual, mas como um Narciso, que queria aparecer." E ele ri da própria revelação.

Seus melhores papéis? No teatro? "Houve muitos, um dos mais difíceis foi em Gata em Teto de Zinco Quente, de Tennessee Williams. No cinema? "São Paulo S/A, embora o próprio Luiz Sérgio Person, o diretor, considerasse O Caso dos Irmãos Naves mais maduro. Não é, mas cinema é fotografia andante e, no primeiro filme, ele achou que devia demais ao fotógrafo Ricardo Aronovich." Na TV? "Fiz muitas novelas, mas foi Os Maias. Por causa de Eça de Queiroz." Walmor gostou de comemorar os 82 anos no cinema. Já tem outro filme pronto, uma adaptação de Stefan Zweig, Sentimentos de Confusão. Quem sabe para comemorar 83, no ano que vem?

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