Walmor Chagas reúne poesia e música em "Lua e Conhaque"

A cumplicidade está na troca deolhares e o entrosamento nas palavras - depois de um longoperíodo em que suas carreiras se entrecruzaram em apenas algunsmomentos, o ator Walmor Chagas e a cantora Clara Becker, pai efilha, comandam juntos, a partir de amanhã, um passeio pelapoesia, em poemas e canções, de Carlos Drummond de Andrade,Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes. O espetáculo chama-seLua e Conhaque e estréia amanhã para convidados, iniciandotemporada para o público a partir de sexta-feira, no Teatro do Sesc Consolação. O ator interpreta um personagem sem nome que, ao entrarem um bar onde uma cantora se apresenta ao lado de um quarteto,inspira-se em sua bela voz e começa a interpretar poemasdaqueles autores. Não se trata de uma peça tradicional, nem deum show convencional, mas um espetáculo único, que une apresença marcante da música de um com o fio de dramaturgia dooutro. "A combinação resulta em uma espécie de teatro de bolsomusical e intimista", comenta Clara, de 39 anos, que cantaacompanhada de quatro músicos. "As canções têm o mesmo valordramático do texto." O trabalho de pesquisa contou com o auxílio dojornalista Roberto Benevides, profundo conhecedor da obra dostrês poetas e responsável pela escritura do roteiro final. "Aescolha de Drummond, Bandeira e Vinícius aconteceu porque elesnão só figuram entre os melhores do Brasil como também têmmuitos pontos em comum, como a musicalidade das palavras e oamor pelo Rio de Janeiro, cidade que surge como personagem deseus poemas", explica Benevides. Walmor, aliás, explica que não vai simplesmente declamar mas interpretar cada um dos autores, buscando as pequenasdiferenças de dicção, as vozes e emoções distintas. "ComoDrummond era mineiro e Bandeira, pernambucano, há váriosmomentos em que eles declamam seu amor e sua saudade pela terranatal." Clara também não se posicionará como atriz, mas estaráno palco como cantora. Além de canções conhecidas, especialmenteas de autoria de Vinícius de Moraes, ela vai surpreender com aapresentação de poemas que foram musicados por Francisco Mignone, Heitor Villa-Lobos, Capiba, Garoto, Tom Jobim e Chico Buarque,entre outros, um trabalho que estava praticamente esquecido."Fizemos uma intensa pesquisa em sebos e com colecionadoresatrás das partituras", conta Clara, que conta com a direçãomusical de Leandro Braga. Assim, será possível escutar o poema Desencanto, deBandeira, sob a música de Radamés Gnatalli, ou Gente Humilde de Drummond, com música de Garoto e Chico Buarque. A poesia,aliás, inspirou o próprio título do espetáculo, retirado dosversos finais do Poema de Sete Faces, de Drummond: "Eu nãodevia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gentecomovido como o diabo." "Esse projeto vem sendo acalentado há mais de dez anose só realizamos agora porque Clara já se sente à vontade parasubir no palco junto comigo", comenta Walmor que, aos 71 anos,acumula 51 de carreira e 40 peças de teatro, diversos filmes nocinema e cerca de 20 participações em telenovelas, séries eminisséries. A afirmação de Clara como cantora foi fundamental. Filhade Cacilda Becker, uma das maiores atrizes brasileiras e quemorreu quando ela tinha apenas 5 anos, Clara chegou a seguiralguns passos da carreira dos pais, trabalhando com Walmor noTeatro Ziembinski, montado por ele, no Rio de Janeiro. "Aproposta já era a de levar textos de grandes poetas e escritorespara o palco e eu participava do grupo de atores", lembra ela,que logo descobriu seu desconforto em atuar. Passou, então, atrabalhar como iluminadora e sonoplasta. Em seguida, desligou-se do teatro e atuou em produção decinema e trabalhou na área de edição da Rede Globo. "Depois detantas etapas, tive a certeza de que queria seguir a carreira decantora", comenta Clara, que teve aulas de canto, teoriamusical e violão a fim de modular sua voz suave. Depois dealgumas apresentações no Rio de Janeiro, ela iniciou carreira em2000, com o show Falando de Amor. No ano passado, já com aaproximação do pai, que assumiu a direção, ela se apresentou nobar Supremo. Lua e Conhaque consolida, assim, não apenas suacarreira como cantora, mas também a terna parceria com o pai. Oespetáculo tem pretensões de viajar para outras cidades, masdepende ainda de patrocínios. "Queremos fazer apresentaçõessempre a preços acessíveis", conta Walmor Chagas que, para atemporada que se inicia amanhã, investiu do próprio bolso aquantia necessária para a produção (R$ 150 mil). Com a excursão,o ator espera oferecer uma ode à cidadania. "O tom principaldos poemas é uma declaração de amor às cidades onde vivemos." Além de Walmor e Clara, estão em cena os músicos AmadorLonghini Jr. (piano), Rudney Cezar Arnaut (violão), AdrianaHoltz e Angelique Camargo (cello) e Ovanir Buosi (clarineta).Walmor ainda dirige o espetáculo, ao lado de Clemente Portella.Lua e Conhaque - Teatro Anchieta no Sesc Consolação: Rua Doutor Vila Nova, 245. Tel: 3256-2281. Sextas e sábados às 21h; domingos, às 20h. R$ 20,00 e R$ 10,00 (estudantes). Até 31/3

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