Walcyr Carrasco, sem medo de temas tabus

Autor lança três livros para crianças e jovens em coleção que quer combater preconceitos de todos os tipos

Dib Carneiro Neto, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2010 | 00h00

Uma menina metida só gosta de cães com pedigree e despreza a vira-lata adotada por sua mãe. Um menino foge para a casa da avó quando descobre que o amigo que mora com o pai não é só um amigo do pai. Uma arara de bico torto sofre de inanição e quase morre, porque foi rejeitada por sua mãe, que não conseguia alimentá-la. São os enredos de três novos livros infantis de Walcyr Carrasco, que inauguram a série Todos Juntos, da editora Ática.

Além de escrever livros para adultos, crônicas e peças de teatro e ser um dos mais bem-sucedidos autores de novela da Rede Globo (O Cravo e a Rosa, Alma Gêmea e Caras & Bocas), Walcyr Carrasco sempre se dedicou à literatura infanto-juvenil. A diferença é que agora ele quer se debruçar com mais afinco a "questões delicadas", como diz. A nova série da editora caiu como uma luva, pois é totalmente voltada para os preconceitos e os temas difíceis na vida das crianças.

Qual destes três novos livros você demorou mais para escrever e por quê?

O mais demorado foi a ararinha de bico torto, porque foi o primeiro. A ideia da coleção aconteceu da seguinte maneira: meu cabeleireiro, o Mário Nunes, do Studio W, ganhou um filhote de arara com o bico torto de um criador. E ensinou a ararinha a comer, tal como descrevo no livro. Eu fiquei entusiasmado com a história e a ideia da série Todos Juntos surgiu. Mas essa história demandou alguma pesquisa, para entender o processo de criação da pequena arara de bico deficiente. Os outros surgiram na sequência!

Qual o segredo para escrever livros infantis tão fluentes e agradáveis de ler?

Eu sempre me dediquei à literatura infanto-juvenil. Aliás, foi onde comecei com "quando meu irmãozinho nasceu", hoje na quinteto editorial. Eu acho que o segredo é deixar a intuição rolar, como em qualquer processo de criação. E escrever a história para o meu lado criança que, francamente, ainda é muito forte!

Você acha que livros infantis sempre devem conter mensagens positivas e lições de moral? Por quê?

Não necessariamente. A boa literatura é importante por si mesma. É preciso ter consciência que livro não é palestra. A boa literatura pode abordar um tema em profundidade, muitas vezes sem uma mensagem explícita. Ou dando um painel da realidade para o leitor refletir, sem focar em uma conclusão. O mais importante é que o autor seja honesto com seus sentimentos, com seu processo de criação. Eu, pessoalmente, sou preocupado com a realidade, com o entendimento entre os seres humanos. Luto contra a exclusão e o preconceito em tudo que escrevo, de novelas a livros. Portanto, meus livros tendem a ter uma reflexão sobre a realidade, uma busca do aprimoramento das relações, porque eu sou assim. E meus livros acabam expressando minha busca por uma sociedade melhor. Acredito que contribuem, sim, para o processo de educação e formação dos leitores.

Que temas você ainda não contemplou em seus livros infantis e sobre os quais gostaria de escrever? Por quê?

Ah, são tantos! Pretendo escrever sobre os nerds, sobre bullying digital. Eu não paro de ter ideias!

Ao escrever um livro infantil, você já descartou palavras por achar que não eram apropriadas para as crianças? Quais?

Meu processo, como disse, é mais intuitivo, o livro sai sem que eu reflita muito sobre o vocabulário. Eventualmente, como quando escrevi Vida de Droga, que aborda o universo dos drogados, faço uma pesquisa de linguagem específica e incorporo os termos nos meus textos. Mas é óbvio que, sendo os meus livros fortemente lidos em salas de aula como literatura paradidática, eu evito palavrões, por exemplo.

Como ainda há muito preconceito e intolerância no Brasil, você não teme que seu livro sobre homossexualismo (Meus Dois Pais) possa desagradar pais e professores mais conservadores e, com isso, sofrer algum tipo de boicote em escolas e bibliotecas?

Não tenho medo algum, porque o tema, a meu ver é tratado com respeito e delicadeza. Quando escrevi Vida de Droga, onde a garota de classe média se vicia e chega a se prostituir, eu temia a rejeição. Minha surpresa foi ser chamado por inúmeros escolas religiosas, dirigidas por freiras, para dar palestras, porque tinham adotado Vida de Droga! Constatei que a maneira como o tema foi colocado agradava professores e pais, porque contribuía para a formação dos filhos e alunos. Acredito que ''meus dois pais'' terá a mesma aceitação. Agora, se a rejeição acontecer de alguma maneira, isso mostrará ainda mais como o livro é importante e como esse tema merece ser discutido. Meus Dois Pais fala sobre amor e aceitação, não sobre sexo. Acho que esse é o trunfo principal do livro. E não nego, eu me sinto corajoso por introduzir este tema pela primeira vez na literatura infanto-juvenil brasileira.

Cite três livros infantis que você adora, com temas correlatos aos dos seus, que você recomendaria ao seu público mirim como complemento de leitura.

Lá vai a minha lista: 1) O Rapto do Garoto de Ouro - de Marcos Rey coloca um garoto deficiente físico integrado com a turma. É lindo! 2) Um Encontro no Escuro - de Márcia Kupstas mostra de maneira emocionante a relação entre um cego e uma garota. 3) A Ética do Rei Menino - de Gabriel Chalita, fala sobre a ética, que é um tema fundamental para a formação do cidadão.

Três vezes cidadania

Meus Dois Pais

Ilustrações de Laurent Cardon. A mãe e o pai se divorciam e o menino vai morar com o pai, porque a mãe tem de mudar de cidade. Na casa do pai, ele descobre um grande amigão, que fica tão íntimo a ponto de ir até em reuniões de avaliação na sua escola. Até que os coleguinhas sopram para o garoto que o moço que mora com o pai dele não é apenas um amigo. O menino se revolta e vai para a casa da avó. Até que tudo se resolve.

Pituxa, a Vira-Lata

Ilustrações de Simone Matias. Garota bem esnobe só gosta de cachorros com pedigree e torce o nariz para a vira-lata que a mãe traz pra dentro de casa. Até que surge uma oportunidade para a menina entender que aparência não é tudo na vida. O que vale é a solidariedade.

Ararinha de Bico Torto

Ilustrações de Al Stefano. O tema é delicado: as pessoas com deficiências físicas. O filhote de arara nasce com bico torto e é rejeitado pela mãe. No final, graças a protetores de animais, vira uma ave feliz e independente. Cada um dos três livros custa R$ 24,90 e tem 40 páginas.

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