Wajda abre ciclo do melhor cinema polonês

Tudo começou com o impacto produzido por Kanal, nos anos 50. Naturalmente que o cinema polonês já existia antes. Um certo Aleksander Ford já gozava de prestígio entre os críticos, mas foi com o clássico de Andrzej Wajda sobre a resistência polonesa durante a 2.ª Guerra que o cinema da Polônia entrou para o mapa. Em seguida, Wajda fez a obra-prima Cinzas e Diamantes, até hoje um de seus melhores filmes, senão o melhor. E surgiram A Faca na Água de Roman Polanski, e Madre Joana dos Anjos, de Jerzy Kawalerowicz. Os anos 60 foram grandiosos para o cinema polonês.É tempo de lembrar tudo isso porque a partir de amanhã (20), e durante uma semana, o Telecine Classics, da Net/Sky, homenageia o grande cinema da Polônia. A programação começa e termina sob o signo de Wajda, o mestre reverenciado pela Academia de Hollywood, que lhe ofereceu um Oscar especial de carreira, no começo do ano. Amanhã passa Cinzas e Diamantes e, no domingo, Kanal, quando o melhor talvez fosse inverter a ordem de exibição desses filmes, não só para seguir a cronologia da realização, mas também para reservar o filé para o fim.Entre os dois Wajdas, passam Trem Noturno, de Kawalerowicz, na terça; Eroica, de Andrzej Munk, na quarta; Manuscritos de Saragoça, de Wojciech Has, na quinta; Madre Joana, na sexta; e Cavaleiros Teutônicos, de Ford, no sábado, sempre às 22h. Não há um só desses filmes que não justifique a sintonia. A maioria deles trata de temas ligados às experiências da guerra, mas há exceções. Cavaleiros Teutônicos é um épico na linha de Alexander Nevski, de Sergei M. Eisenstein. Madre Joana baseia-se num célebre episódio de possessão demoníaca num convento da França (em Loudun). O mesmo episódio foi tratado nos 70 pelo enfant terrible do cinema inglês na época, Ken Russell - e Os Demônios provocou tanta polêmica que foi sumariamente proibido no Brasil pela censura do regime militar. Falta, e é pena, o primeiro Polanski. A exibição de Faca na Água enriqueceria a programação do Telecine Classics com uma obra - um triângulo amoroso num barco - que resistiu, como poucas, à passagem do tempo. Também seria bem-vinda a exibição de qualquer dos filmes da primeira fase de Jerzy Skolimowski, o Godard polonês dos anos 60.Por mais sentidas que sejam essas ausências, há atrativos de sobra entre o que o público pode ver essa semana. Os melhores programas são os filmes de Wajda e Madre Joana. Kanal reabre a vertente do cinema do esgoto, que Carol Reed e Orson Welles tão brilhantemente exploraram em O Terceiro Homem. O quadro é outro, a intenção é outra, mas o esgoto de Kanal, por onde transitam os integrantes da resistência e os fugitivos do gueto de Varsóvia, não é apenas um cenário plasticamente impressionante, com sua luz e sombra e o traçado labiríntico, como impressiona mais ainda como representação do mundo.O público e os críticos mal se haviam recuperado do impacto de Kanal quando Wajda propôs Cinzas e Diamantes. O filme é interpretado por Zbigniew Cibulski, o ator-fetiche do diretor no começo dos anos 60. Era chamado de James Dean, morreu trágica e precocemente. No quadro da Polônia recém-saída da guerra, Cibulski faz um terrorista cuja missão é matar um dirigente comunista. A cena mais marcante passa-se numa igreja em ruínas. Não é preciso evocar a vocação religiosa da Polônia para deixar claro que, por meio desse cenário, o autor estava querendo refletir sobre o país, no momento em que os comunistas assumiam o poder. Há um certo desencanto de Wajda, pois quando ele fez Cinzas e Diamantes os soviéticos já haviam reprimido duramente a rebelião na Hungria. O regime era autoritário. Wajda sabia disso porque teve, sucessivas vezes, problemas com as autoridades comunistas. Nunca desistiu de fazer cinema político. Avançando na cena da igreja em ruínas de Cinzas e Diamantes, ele chega a esse plano extraordinário que mostra um crucifixo invertido, com o Cristo virado de cabeça para baixo. Representa a inversão de valores num mundo que se torna progressivamente insano. É um momento maior, não só desse filme, mas de toda a obra de Wajda.E há Madre Joana. As freiras de um convento ficam possuídas, chega um padre para exorcizá-las, ou pelo menos para tentar descobrir o que se está passando no lugar. Termina envolvido pelo clima de histeria e sexualidade desenfreada que domina Madre Joana e suas companheiras de claustro. O filme provocou grande escândalo. Foi considerado blasfemo. Como sempre fez nesses casos, a Igreja ameaçou excomungar o diretor. Kawalerowicz desenvolve uma discussão filosófica sobre íncubos e súcubos. Mas o que o espectador retém desse filme extraordinário é a conformação plástica do cenário e a própria bipolaridade da narrativa. Há de um lado o convento, de outro, a taberna. E, entre os dois, um imenso vazio. A bipolaridade de Kawalerowicz - não é de duvidar que tenha influenciado Gláuber no Brasil. Deus e o Diabo, o dragão da maldade e o santo guerreiro, Diaz e Vieira em Terra em Transe. Gláuber foi sempre bipolar, uma lição que talvez tenha retirado de Madre Joana dos Anjos, filme que dificilmente deixou de ver. Foi um dos mais comentados do começo dos anos 60.Serviço - Clássicos do Cinema Polonês. De segunda a domingo, às 22 horas. Telecine Classics

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