Wado: melancolia e maturidade

Disponível para download gratuito, álbum traz boas parcerias com Marcelo Camelo, Chico César e Zeca Baleiro

EMANUEL BOMFIM, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h06

Dez anos separam a estreia de Wado, com Manifesto da Arte Periférica (2001), e seu mais novo álbum, Samba 808. Pode parecer pouco, mas há nesta imensidão de tempo outros quatro discos, a fuga definitiva do eixo Rio-São Paulo e uma única certeza: o fim do CD. E não é papo de nostálgico. O novo trabalho do artista catarinense radicado em Maceió não dispõe de formato físico. Existe só em MP3, oferecido para baixar na internet. E de graça.

Surpreendente é notar certa decepção com o ofício musical, expressada em carta que acompanha as doze faixas do disco, endereçada a amigos, compositores, parceiros, jornalistas e ouvintes. "Fazemos isso mais por necessidade de expressão e realização pessoal que por questões de mercado", escreve.

Wado não tem problemas com a falta de fama, encara com sobriedade a complexa missão de ser "indie cabeça". "Eu conquistei coisas bem bonitas, fui bem mais longe do que eu imaginava", diz ao Estado. E logo avisa: ano que vem vai deixar a música de lado para cuidar de outras coisas. "Esse ano eu acabei sem grana, não gosto de viver uma vida restritiva", desabafa.

Samba 808 não contou com gravadora, lei Rouanet ou qualquer espécie de padrinho para que pudesse ser viabilizado. O único incentivo externo foram R$ 8 mil cedidos pela Secretaria de Cultura do Estado de Alagoas. "O resto foi do bolso", explica o compositor. "Eu não sou contra as gravadoras, só que as propostas que tive não foram justas. Acho até que isto prejudica um pouco o espectro do disco. Ele poderia ser mais amplo se tivesse alguém para me ajudar", admite.

Esta falta de uma estrutura mais pujante não o coibiu de usufruir de suas nobres amizades. O álbum está repleto de ótimas parcerias, muitas delas com artistas consagrados, como Marcelo Camelo, Zeca Baleiro e Chico César. "São pessoas da minha relação diária de internet. O disco acabou tendo esta cara da internet. Pouquíssima gente eu gravei presencialmente."

Diferente do ambiente 2.0 da produção, foi a máquina escolhida para sustentar o groove e efeitos eletrônicos presentes nas faixas inéditas. Assim como já havia feito Kanye West, Timbaland e outros magos da criação de bases e samplers, Wado resgatou um sintetizador TR-808 para compor este samba-pop meio torto do disco. A primeira vez que viu um destes, ele ainda morava no Rio, era amigo de Hermano Vianna, irmão do Herbert, que foi quem mandou encomendar um exemplar da bateria eletrônica para dar de presente ao DJ Malboro. Era o início do funk no Brasil, reverenciado agora pelo próprio Wado.

"O 808 é um sampler que não tem muita qualidade de definição, mas ele tem uma assinatura própria pela força dos timbres", explica. Mas a incorporação deste elemento rítmico de origem oitentista não é o diferencial do novo trabalho de Wado. De tão introspectivo, ora melancólico, Samba 808 chega a parecer um disco construído só nos acordes do violão, tamanha a fartura de melodias arrebatadoras. Não seria nada descabido colocar a romântica Com a Ponta dos Dedos, com Camelo e Mallu Magalhães, como uma das melhores músicas de 2011. "As coisas mais radicais que tinha para fazer, eu já fiz. Hoje em dia eu respeito mais a melodia do que o conteúdo."

Desde que deu as caras na música e vendeu seu primeiro lote de mil CDs, Wado já sofria de uma certa incompreensão da crítica. Queriam colocá-lo no mesmo bolo do mangue-beat ou do samba elétrico de Fred Zero Quatro. Dez anos depois, ele prefere não perder tanto tempo encontrando definições. "Eu me coloco do lado das pessoas que acho que são meus pares. O resultado mercadológico disso são questões que eu às vezes posso tentar amenizar, às vezes não. Você vai ver poucos autores que tenham gravado seis discos com 34 anos. Ao mesmo tempo, a gente tem que viver, tem que almoçar, tem que estar feliz também."

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