V.S Naipaul foi uma escolha político-literária

Depois de mais de uma década na lista de fortes candidatos aos US$ 950 mil que a academia sueca outorga anualmente para a categoria literatura, o escritor de língua inglesa V.S. (Vidiadhar Surajprasad) Naipaul, enfim, foi escolhido como o ganhador do Prêmio Nobel de 2001. É uma escolha polêmica, não tanto por suas qualidades literárias, mas por suas posições políticas - o Nobel costuma combinar as duas, o que, às vezes, leva a premiações bastante questionáveis. Em outras ocasiões, como no ano passado, com o prêmio para o chinês Gao Xingjian (autor de A Montanha da Alma, ainda inédito em português), a qualidade literária do autor foi obscurecida por sua oposição aberta ao regime chinês. Nascido em Trinidad e Tobago, de origem indiana, Naipaul foi chamado, com freqüência e justeza, de "politicamente incorreto". Em 1990, por exemplo, durante um evento público em Londres, ele descreveu a sentença de morte (fatwa) lançada pelo aiatolá Khomeini em 1989 sobre Salman Rushdie, outro escritor de origem indiana, autor de Os Versos Satânicos, como "uma forma extrema de crítica literária" (leia texto na pág. D3). Desde 1987, quando saiu no Brasil Os Mímicos, são oito as suas obras (entre mais de 20) publicadas pela Companhia das Letras. Naipaul é autor de Entre os Fiéis - Irã, Paquistão, Malásia, Indonésia e de Além da Fé - Indonésia, Irã, Paquistão, Malásia (resultado de duas viagens, uma realizada no final dos anos 70, outra no dos 90) e Índia - Um Milhão de Motins agora. Os títulos dos livros já indicam: Naipaul é um autor que dialoga com o momento que vive o mundo, além de ter sua obra ligada à desconstrução do império britânico. Certa vez, quando esteve no Brasil, afirmou: "Tenho o mundo asiático sobre os meus ombros, um estrago que os brasileiros desconhecem." Sobre a Argentina (ele é autor de O Regresso de Eva Perón), já afirmou, ao ser chamado de pessimista: "Não sei o que isso significa, talvez signifique apenas isso: que na Argentina, adoravam Perón e seus sucessores, que saquearam o país até levá-lo à falência. Não fiz o mundo; tentei registrar o que via da forma mais precisa possível, e sem preconceitos. Adotar uma visão política é ser preconceituoso." Segundo o comunicado oficial da academia sueca, Naipaul recebeu o prêmio por "sua obra, que reúne uma narrativa perspicaz e uma observação incorruptível que nos obriga a ver a presença de histórias reprimidas". Ainda para a academia, Naipaul é "um navegador de mundos literários" e só está "em casa quando está consigo mesmo". "Sinto-me completamente encantado", afirmou Naipaul, num comunicado (suas entrevistas costumam ser curtas e mal-humoradas). Segundo ele, a homenagem é inesperada. "É um grande tributo para a Inglaterra, onde vivo, e para a Índia, pátria de meus ancestrais." O primeiro livro de sucesso de Naipaul (que nunca foi um autor realmente popular) foi publicado originalmente há 30 anos: o romance Uma Casa para o Sr. Biswas, que trata da vida de seu pai. O mais recente, Half a Life (Meia Vida), foi lançado neste ano na Inglaterra. Nascido em Port of Spain, capital de Trinidad, Naipaul, aos 18 anos, mudou-se para a Grã-Bretanha, para estudar em Oxford. Os países e os problemas do Terceiro Mundo (que Naipaul também chama de "mato") são as principais fontes de sua obra, que incluem romances, contos, crônicas e relatos. Para o dramaturgo italiano Dario Fo, que recebeu o Nobel em 1987, a escolha revela uma "escolha política em sentido amplo", enquanto o crítico alemão Marcel Reich-Ranicki se disse "decepcionado". Naipaul também foi comparado, pela comissão do Nobel, ao escritor polonês de língua inglesa Joseph Conrad. "O espaço literário de Naipaul se estende progressivamente para além de seu tema primeiro, a ilha antilhana de Trinidad, para incluir a Índia, a África, a América do Sul e do Norte, os países islâmicos asiáticos, sem esquecer a Inglaterra. Naipaul é o herdeiro de Conrad, como analista do destino dos impérios em declínio no sentido moralista do seu impacto sobre os homens." A cerimônica de entrega do Nobel (que completa seus cem anos em 2001) ocorrerá no dia 10 de dezembro. Entre os comentários que passaram a circular desde o anúncio está o de que a data deve marcar o fim da sua carreira de escritor: há alguns anos, Naipaul vem afirmando que só escreve porque precisa de dinheiro e o que gostaria mesmo é de jogar tênis de vez em quando, sair para passear e dormir depois do almoço. (Com Reuters, France Presse, EFE e DPA)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.