VOZES DA VIDA

Raro exemplo de musical adulto, Quase Normal trata de temas como o luto da perda, ética na psiquiatria moderna e bipolaridade

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

19 Fevereiro 2013 | 02h08

Atormentada pela morte do filho ainda bebê, mulher aos poucos se afunda na depressão, desenvolvendo o transtorno da bipolaridade. Tal enredo cairia como uma luva para um bom drama no palco, mas quem poderia imaginar que inspiraria um musical? Um espetáculo sem dança ou sapateado, em que a guitarra se encontra com o violino e violoncelo, em que o som da marimba se acomoda com o do piano e do baixo acústico, enfim, em que as batidas evocam The Police, U2, The Who? A resposta está em Quase Normal, musical que estreia quinta-feira no Teatro Faap, depois de uma emocionante temporada no Rio de Janeiro.

Trata-se de uma obra intrigante, com uma história adulta, complexa e inovadora para os palcos acostumados a tramas multicoloridas e essencialmente otimistas. Tudo gira em torno da trajetória de Diana Goodman (Vanessa Gerbelli Ceroni), típica dona de casa classe média que, de repente, começa a exibir distúrbios na conduta - primeiro, algo pueril, como enfileirar fatias de pão no chão como se preparasse o almoço; depois, mais grave, como preparar um bolo de aniversário para o filho que há muito está morto.

A atitude não surpreende seu marido, Dan (Cristiano Gualda), tampouco a filha, Natalie (Carol Futuro) - ambos acompanham o sofrimento de Diana desde a morte de Gabriel (Olavo Cavalheiro), filho primogênito. O que pai e filha não suspeitam é que a mente perturbada de Diana acredita ver Gabriel já adolescente, criando uma perigosa dependência.

"Quando li o resumo da trama, deixei esse musical para o fim da minha lista", conta o ator e diretor Tadeu Aguiar. Ele estava em Nova York há três anos ao lado do produtor Eduardo Bakr e, sem opção, a dupla resolveu assisti-lo na Broadway. "No intervalo, eu não conseguia levantar da cadeira, tamanha a impressão que o espetáculo me provocava", continua Aguiar que, a muito custo ("nenhum patrocinador habitual de musicais no Brasil se interessou"), conseguiu viabilizar a produção, ao lado de Bakr. O apoio acabou vindo de duas empresas ligadas de alguma forma à saúde: laboratório Aché e Porto Seguro.

Com música original de Tom Kitt e texto e letras de Brian Yorkey, Quase Normal (Next to Normal, no original) estreou na Broadway em 2009, depois de uma exitosa passagem pelo circuito off. No mesmo ano, o espetáculo ganhou três prêmios Tony e, em 2010, faturou o Pulitzer de drama, tornando-se o oitavo musical a receber tal homenagem.

"O que justifica tal sucesso é que, nesse musical, a palavra é magistral e bem colocada a ponto de que, ao assisti-lo, demorei para perceber que o espetáculo é quase que 80% cantado", observa Tadeu Aguiar que, durante meses, debruçou-se no original até encontrar os melhores vocábulos em português, aqueles que tanto se encaixavam no ritmo como traduziam com fidelidade as expressões.

O resultado é um punhado de frases de efeito, tanto bem-humoradas ("Valium é a minha cor favorita", diz, a uma certa altura, uma resignada Diana) como de alto teor poético ("Quem surta - quem não quer vencer? Ou quem quer, a dor transcender? Aquela que vai se tratar ou quem fica a esperar?").

A fase de tratamento de Diana, aliás, implica o surgimento de mais personagens, como o adorável Henry (Victor Maia), namorado de Natalie, e Dr. Fine e Dr. Madden (vividos por André Dias e, nessas duas primeiras semanas, por Rafael de Castro), médicos que, com fé inabalável da ciência, não pensam duas vezes em adotar o eletrochoque. É justamente a fase mais angustiante de Quase Normal.

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