Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão
Imagem Sérgio Augusto
Colunista
Sérgio Augusto
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Vozes da metrópole

Antologia de Ruy Castro reúne 41 romancistas, jornalistas e poetas que marcaram os eu tempo

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 19h22

Nos 10 meses em que ficou de quarentena em 2020, Ruy Castro mergulhou na literatura e no jornalismo que no Rio se praticavam nos anos 20 do século passado. Separou e digitou trechos de romances, crônicas e outros tipos de prosa e verso que melhor ilustrassem sua tese, veiculada há dois anos, no livro Metrópole à Beira-mar: a de que o Rio já era moderno antes de São Paulo acordar modernista. 

Cem anos atrás, o Rio não era apenas a capital da República, mas também a única cidade do país com mais de 1 milhão de habitantes, dotada de ruas iluminadas e cruzadas por carros e bondes, prédios altos (com elevador)— “e um grau de barulho, velocidade e atrevimento com que as províncias nem sonhavam”.

Livros, jornais e revistas a mancheia animavam seu mercado editorial e sustentavam os intelectuais que, já naqueles idos, preferiam a boemia a tomar sol na praia. E ainda havia as moças de saias curtas e ideias avançadas, para muitos uma das mais preciosas prendas do cosmopolitismo carioca.

O Rio jamais pretendeu ser uma Biarritz tropical, mas uma Paris-sur-mer sim, com algum toque de Nice e um carnaval incomparavelmente mais animado e inventivo. 



Em seu novo livro, As Vozes da Metrópole, que a Cia das Letras acaba de lançar, Ruy completa o serviço do anterior, compilando uma antologia de 41 romancistas, jornalistas e poetas—a geração de Olavo Bilac, Emilio de Menezes e Bastos Tigre—que marcaram o seu tempo e retrataram o mood e a efervescência da cidade que ainda não fora apelidada de “maravilhosa”, embora já o fosse. É uma seleta de gente que, nas palavras do antologista, escrevia “em brasileiro”, em todos os estilos correntes, sobre uma variedade de assuntos, preferencialmente extraídos de dramas humanos e conflitos sociais e políticos, sem abrir mão da leveza e do humor.

Vários deles continuam reconhecidos e reeditados : João do Rio, Lima Barreto, Murilo Mendes. De alguns, como Dante Milano e Alvaro Moreyra, ainda se ouve falar, mas há muito pegam mofo em sebos. Outros, como Graça Aranha, autor de Canaã,  o “homem essencial” para os modernistas, ganharam o limbo e lá ficaram. 

A maioria das vozes emudeceu nas décadas seguintes ou lhe foi negada a fortuna de ocasionais reimpressões. Benjamin Costallat foi best seller nas décadas de 20 e 30, depois sumiu. Orestes Barbosa acabou se eternizando pela música (é dele a letra de Chão de Estrelas). Ruy valoriza e destaca com proficiência quem merecia ficar mas não ficou. O primeiro bônus do livro é um apanhado da crítica cáustica e implacável de Agrippino Grieco aos beletristas da época. Grieco foi uma espécie de H.L. Mencken fluminense. 

Antes que reclamem das ausências de Manuel Bandeira e Cecília Meirelles, informo: os responsáveis por seus espólios nunca estiveram disponíveis para negociar a inclusão de três poemas de cada um—todos gratuitamente acessáveis pela internet.

Tudo o que sabemos sobre:
literaturaRuy Castro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.