Marcos de Paula/ Estadão
Marcos de Paula/ Estadão

Voz própria no cenário pop carioca

Maria Luiza, filha de Tom Jobim, mistura influências ao lançar álbum com o Opala, duo de pop eletrônico caseiro

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2013 | 02h08

Maria Luiza Jobim já teve 15 minutos de fama no grupo Baleia, um misto de trupe cigana com orquestra de jazz que parecia acomodar tranquilamente as expectativas em torno de sua carreira. Leia-se: filha de Tom (a do Samba de Maria Luiza) integra banda de swing gitane, receita suficientemente agradável para falar à nova geração sem distanciar-se do legado paterno. Não que esse fosse o intuito de Maria Luiza, cantora de 26 anos. Mas, em uma geração povoada por filhos de grandes nomes - ou cantores com algum tipo de pedigree artístico -, a proposta da cria tende a obedecer os vínculos familiares da MPB. Sucede um marasmo perpetuado por músicos que caem nas graças de saudosistas em vez de derrubar suas expectativas.

Pois bem. Maria Luiza não se satisfez com os aplausos, e está atrás de uma identidade própria, mesmo que isto signifique caminhar longe da narrativa convencional. Lança no fim do mês um EP com o Opala, duo de pop eletrônico caseiro formado em parceria com o produtor Lucas de Paiva.

"O Baleia era legal, mas era muita gente. Não deu certo. Eu queria fazer as minhas próprias músicas, buscar outras influências", conta Maria Luiza, por telefone, ao Estado. O Opala (nenhuma semelhança com a banda de samba-rock Os Opalas) faz indie pop com influências internacionais. Nas duas faixas já disponíveis na internet (através do www.soundcloud.com/maria-luiza-jobim), cantam em inglês, vestem faixas com sintetizadores e buscam espaço entre os elementos para afiar o impacto da voz. Dialogam com o som de bandas independentes como Beach House, Chairlift, Toro Y Moi, entre ínumeras outras, embora mostrem mais personalidade do que a maioria de bandas brasileiras que buscam tais referências.

Ao centro das faixas, Maria Luiza exibe talento ao cantar com melancolia etérea e ao mesmo tempo encorpada. É uma característica própria, que lhe confere credenciais para uma carreira diferenciada. Já Lucas, que trabalha também com Marcela Vale no projeto de synth pop oitentista Mahmundi, cria texturas delicadas para acompanhá-la, e a combinação ganha força através de letras confessionais.

Entretanto, a receita cosmopolita do Opala está mais atrelada ao curriculum vitae dos artistas do que a um desejo de sucesso internacional. "Às vezes andamos pelo aterro e dizemos 'cara, estamos no lugar errado'. Mas não canto em inglês para atingir o público lá fora. É simplesmente uma coisa natural. As minhas referências são externas. Não escuto música brasileira. Só gosto de Caetano. Claro que gosto da música do meu pai. Óbvio. Mas de uma maneira diferente. Dele vem meu gosto pelo jazz e outras coisas", conta Maria Luiza, que foi alfabetizada em inglês e morou em Nova York e Paris antes de conhecer Lucas, o filho de um diplomata, com semelhante vivência internacional.

"Acho que nos identificamos através destas semelhanças. Nas letras, buscamos uma poesia mais emocional para nos expressarmos. Acho o português uma língua muito difícil de musicar. Tem muita consoante. O inglês é mais fluido", completa.

A influência de Tom, é claro, não deixa de ser uma questão relevante. Mas esta se dá mais no interesse por literatura e na curiosidade musical do que em acordes sofisticados. "Acho que a música do meu pai me influenciou muito informalmente. Eu venho de uma família toda de músicos. Sempre estava nos ensaios. Havia sempre músicos lá em casa. Eu acho que isso cria uma musicalidade, uma predisposição para coisa", diz a cantora, que já estudou arquitetura mas largou para ir atrás da carreira musical, e hoje divide o tempo entre o Opala e um curso de letras na PUC.

A transição de Maria Luiza de cantora de indie pop acústico para uma estética mais ambiciosa se deu com naturalidade. Sempre ouviu jazz em casa, mas não deixou de se manter antenada com a música eletrônica contemporânea. "Ouvi muito Radiohead e Björk, coisas pop com um pé no experimental. As transições aconteceram naturalmente. Conheci artistas que trabalham com estas influências mais contemporâneas."

Estes formam uma boa leva de novos nomes do indie carioca. O Julio Secchin, que atua como Secchin, a apresentou a Marcela Vale, do Mahmundi (que também colabora no EP do Opala). "Comecei a mostrar as minhas músicas, e me identifiquei com o trabalho do Lucas no Mahmundi. Ele tem muitas referências dos ano 80. Ama os timbres eletrônicos. Digo eletrônicos porque fazemos tudo em casa. Usamos algumas coisas analógicas, mas muito é feito no computador", completa.

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