Voz dos perdidos no coração dos EUA

Paralelo 42, de John Dos Passos, traça um extraordinário perfil da América nas três primeiras décadas do século 20

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h10

PARALELO 42

Autor: John Dos Passos

Tradução: Marcos Santarrita

Editora: Benvirá

(352 págs., R$ 44,90)

VINICIUS JATOBÁ

John Dos Passos (1896-1970) foi o primeiro grande escritor estadunidense do século passado e em 1936, entusiasmado, o francês Jean-Paul Sartre afirmou que Dos Passos era simplesmente o maior escritor de seu tempo. É efusivo e visto de hoje exagerado, mas há algo de verdadeiro nessa euforia. Durante duas décadas - de 1921, quando publicou com estrondo Three Soldiers, até 1939, com a desastrosa publicação de Adventures of a Young Man -, Dos Passos foi o grande nome do romance americano; mais exatamente, o grande nome da desconstrução do romance americano realista, cujo maior representante naquele momento era o brilhante Sinclair Lewis, autor de Main Street (1920) e Babbitt (1922). Fragmentários, experimentais, descentralizados, os livros de Dos Passos foram a primeira experiência radical na literatura estadunidense de retrabalhar o realismo literário dentro de uma nova concepção tanto de história, não mais linear e causal, mas caótica e refratária, quanto de cidade, de homem alienado, proletário, sonhador, delirante, perdido no coração da cidade ruidosa e veloz.

A estética dos romances de Dos Passos foi uma das mais extravagantes engrenagens narrativas criadas no início do século passado, e sua primeira realização plena pode ser encontrada na obra-prima Manhattan Transfer, de 1925, que a Benvirá publicará no País em 2013. É impossível entender o impacto original da experiência de leitura do romance hoje, quando as técnicas de vanguarda são um lugar-comum, usadas inclusive em gêneros mais populares, como romances policiais e de ficção científica. Dos Passos investiu em criar a sensação de simultaneidade: um punhado de personagens que vivem numa Nova York babélica, em que se misturam pelas ruas atores, operários fabris, especuladores da bolsa, imigrantes, políticos, vadios, líderes anarquistas. Dos Passos assume como personagem a Ilha de Manhattan, como se fosse um organismo vivo que abriga o destino das pessoas, perdidas no rebuliço do espaço urbano sempre em mutação. O caos de Manhattan Transfer está no polo oposto de um apolíneo Sinclair Lewis: trazendo para sua ficção um gosto de improviso e falta de causalidade, usando técnicas de cortes abruptos e montagem para reproduzir a velocidade frenética da vida urbana, Dos Passos formata uma gramática narrativa prenha de vitalidade.

A Benvirá edita agora o romance Paralelo 42 (1930), que com 1919 (1932) e O Grande Capital (1936), previstos para julho, forma a renomada trilogia USA. A ambição da trilogia é concentrar a experiência americana de três décadas. Para isso, Dos Passos criou um conjunto de livros que causa uma esmagadora sensação de entulhamento: cada fragmento apresenta novos acontecimentos na vida de um grupo de personagens de várias classes sociais, mas também minibiografias de figuras históricas notáveis de seu tempo, e ainda reproduções de notícias de jornais e propagandas e trechos que são como reportagens e ensaios que tentam articular esse caos. Sem-cerimônia: USA tem uma estética excessiva que pretendeu abarcar um tempo excessivo, cujo coração foi o aprofundamento do processo de industrialização dos EUA. Mais, até: Dos Passos elege como protagonista o dinheiro, a cultura capitalista, os valores capitalistas e a maneira como deformam os sentimentos das pessoas em uma obra amarga, que começa com a imigração festiva, passa por uma guerra carniceira, e quando promete a realização dos sonhos das personagens naufraga na Quebra da Bolsa de 1929.

Paralelo 42, que inicia a trilogia, tem em suas personagens e trajetórias a concentração de vidas típicas dos EUA daquele tempo. Desde Mac, o operário jovem que se envolve com um grupo anarquista e decide largar a fábrica e ir se juntar à Revolução Mexicana, até Janey, uma adolescente que, para escapar da família problemática, começa a trabalhar como estenográfica. Vale menção ainda a jovem Eleanor, mulher independente, ávida por viver em ambientes culturais e que trabalha com decoração de casas de famílias abastadas, e também a experiência de ir para 1.ª Guerra, dor que Charley vai sofrer. A personagem mais interessante, e acaba se tornando emblema da crise moral que Dos Passos desenha, é, no entanto, Ward Moorehouse, que se torna consultor de relações públicas: o que importa é o que se aparenta ser. Em um romance no qual todos buscam um lugar ao sol no sonho americano, Ward é o único que percebe que o tal sonho é um lugar vazio a ser preenchido pela propaganda.

Nesse sentido que ganham relevo as notícias de jornal: elas marcam a distância entre a maneira como esse mundo se vê (progressista, modernizador) e como as pessoas realmente vivem nele (exploradas, alienadas). Esse desenho de distância é geral: Janey, que entra no mercado de trabalho para fugir do paternalismo e se afoga em um sistema machista; Mac, que vai em busca de justiça social em terras mexicanas para encontrar uma ambição fundiária e petrolífera no lado revolucionário; Charley, que alimenta sentimentos nacionalistas que são destroçados pela violência da guerra. Por trás de toda corrosão está sempre o dinheiro: confortável, perturbador, é o combustível desses novos EUA que John Dos Passos, com seu agudo olhar de cronista da experiência americana, disseca e desmembra com energia expressionista.

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