Voyeurismo

Marca um colega e aumenta a tela, deixa a tela só pra ele. Observa estante, livros, sofá...

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 03h00

A aluna do Copan lia um texto. Todos leram um. Meu amigo de infância, que encontrei na oficina literária via Zoom, comentou pelo chat: “Bonita ela”. Contei que eu a apelidara de “a aluna do Copan”. 

Me perguntou como eu sabia que ela morava no prédio do formato da bandeira do Estado de São Paulo. “Só aumentar a tela dela, dá pra ver as marquises na janela”, expliquei. “Você também aumenta a tela e fica xeretando?” 

O também indicava que eu não era o único que não deixava o professor em “full screen”, procedimento-padrão, mas eventualmente alunos desconhecidos. Sim, aumento, respondi envergonhado e aliviado em saber que esse tipo de desordem, e o voyeurismo é uma na ordem das psicopatologias, é comum. 

Examino a casa, a decoração. Quem não quiser, que desligue a câmera. Até Eric Yuan, fundador da empresa californiana Zoom Video Communications, meter a ferramenta que proíbe usuários de uma mesma reunião de aumentar a tela de quem não autoriza. Imagino quantas pessoas não fizeram isso comigo...

No começo do ano, eu fazia um curso semanal do historiador e amigo de longa data Luis Felipe Alencastro, no cento de São Paulo. Tinha que sair de casa meia hora antes, no meio da tarde. Por sorte, tem uma vaga de deficiente em frente. Se não tivesse, eu gastaria 20 pratas num estacionamento. 

Era uma classe de mais de 30 pessoas. Poucos interagiam. Todos tinham pressa. A maioria entrava e saía quieta, ruminando informações de duas horas de aula em que eram projetados na parede mapas do Atlântico Sul, o Brasil seiscentista nas pinturas de Albert Eckhout e Frans Janszoon, feitos de navegadores, as primeiras colônias. 

Veio março, protocolo, isolamento, lockdown, pânico. Aulas in loco canceladas. Foi o boom do Zoom. Alencastro se adaptou rapidamente, passou a operar duas telas de casa, comprou uma câmera nova, aprendeu as ferramentas do serviço de conferência remota, símbolo da pandemia. Os mesmos alunos continuaram, e entraram outros de fora do Brasil.

E ali comecei uma peregrinação tímida ao redor da vida alheia. Cheio de culpa. Até descobrir que muitos fazem isso. Você marca um colega e aumenta a tela, deixa a tela só pra ele. Observa a estante, livros, mesa, cadeira, sofá, quadros. 

Imagina em que bairro a pessoa mora, com quem. Opa, passou alguém, será um amante, um parente, um amigo? Ele tem gatos. Um cachorro chato. Aquela cadeira parece de astronauta. A janela é do Copan. Por que está claro, se já é noite, está na Costa Oeste americana? Descobrem-se fumantes e maconheiros, quem prefere vinho branco, tinto. Que cerveja será aquela? Ela me parece familiar, mudou de casa? Parece um sítio. Está numa rede. Tem galinhas passando. Que inveja, queria eu estar no mato, longe da pandemia, com meus livros, filhos e o Zoom.

Que cama bagunçada... Ela mudou o quadro da parede. Ouso perguntar, no chat: “Eu te conheço. Mudou o quadro?”. Ela não está prestando atenção. Concentra-se na aula. Parece séria. 

Todos estamos sérios desde março. E desesperados, assustados. O mundo tecnológico hiperconectado vive experiência bíblica de vilas da Roma antiga, feudos da Idade Média. Ela sorriu, lera a mensagem, me respondeu que, sim, trocara. Descobrimos afinidades, amigos em comum. A filha dela, claro, fora colega de classe do meu filho. Falamos de educação a distância e cursos online.

Com o tempo, revelou: a vida no campo não era essa cocada toda. Fantasmas do passado deram as caras. Tinha dias em que ela não aparecia. Depois, aparecia emburrada. Uma vez apareceu de vestido florido, cabelo solto. Recebera a visita do pai da filha, contou. 

Ela me indicou outros cursos, eu indiquei livros para ela. Nos encontramos em salas de aula. Pouco a pouco, veio em desabafos o relato do inferno pela qual passava, ao voltar a morar com a família. Escritor é voyeur, diria Gay Talese. Ela se tornava mais interessante do que algumas aulas. Parecia um romance de Dostoievski: intrigas familiares, vícios, doenças.

Por fim, ela sumiu. Desistiu dos cursos. Mas não fiquei abalado. Logo estava em outro curso, examinando um senhor que dormia e roncava. Depois, uma colombiana que escrevera sobre puladas de cerca. Ela falava baixo, para o marido não escutar.

Conheci uma promotora que está em todos os cursos de literatura, inclusive no meu, e escreve sobre robótica. Talentos se revelam. Menino bipolar escreve sobre seu redemoinho existencial. Vi gente de Moçambique, Angola, Europa e Estados Unidos.

Por fim, uma jovem tatuada, Mya, num curso sobre crônica, bebendo bock, com gatos passando, leu a sua: 

“Foi através da tela que eu o vi pela primeira vez. Sabe como é, tempos de fora de bar, fora de festas, fora do mundo e dentro de casa. Através da tela eu vi o moço, seu jeito, seu sorriso, o que ele dizia. Através da tela, meio suja, embaçada, aquela imagem 2D achatada, composta por mais uns amigos quadriculados. Sem cheiro, sem calor, até o volume do que ele falava eu podia controlar na ponta dos dedos. Nossa! Percebi agora essa incrível vantagem desses nossos tempos!”.

Tremendo isolamento, e entramos na casa dos outros. Distanciamento, e ficamos íntimos. Mundo estranho esse de hoje...

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

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