"Vox Populi" faz mergulho na história

O canal a cabo TV Cultura e Arte apresenta nesta quinta-feira, às 23 horas, uma reapresentação de Vox Populi. Um programa de entrevistas, produzido pela Rádio e TV Cultura de São Paulo entre os anos 70 e 80. O jornalista Heródoto Barbeiro comanda a entrevista com o escritor de telenovelas, roteirista e dramaturgo Lauro César Muniz. Durante uma hora e 15 minutos de duração, o telespectador fará uma viagem através da história. O programa gravado em 1985 abre espaço para um bate-papo interessante, no qual Muniz descreve o cenário histórico e político daquele momento. O começo de uma nova era marcada pelo fim da ditadura militar, a morte de Tancredo Neves e o início do governo Sarney. O dramaturgo descreve sua insegurança perante o novo presidente. "Estou preocupado com a chamada Nova República. Não sinto que o Sarney tenha carisma suficiente para governar o País, este é um momento muito importante, temos de tomar cuidado para que não haja um retrocesso político. Sinto medo, mas, ao mesmo tempo, esperança", comenta. "O País só terá uma definição, uma verdadeira cara, após a organização de uma Assembléia Constituinte", diz. A incerteza ainda pairava no ar. Um outro aspecto que preocupava o escritor de telenovelas é a censura. De acordo com Muniz, naquele período ainda havia censores nos bastidores das emissoras. "Atualmente tenho mais liberdade para fazer um texto teatral do que uma novela. Por exemplo, tive de tirar personagens que se travestiam de mulheres em uma novela. A censura alega que as leis continuam as mesmas." Durante a entrevista, Muniz comenta as diferenças das linguagens teatral e televisiva. "Em minhas peças procuro mostrar com são as relações humanas. Quando esses relacionamentos se aprofundam entram questões políticas. Ao contrário - destacar aspectos políticos em primeiro lugar - transformaria a peça em um teatro político panfletário, o que não me agrada." Indagado sobre o seu público, o escritor explica: "No teatro você sabe para quem falar. A televisão é mais distante, os espectadores são ecléticos; é fascinante poder atingir pessoas diferentes todas as noites." Muniz declara que a pior censura é a autocensura. "O palavrão é algo que não machuca, muitas vezes pode exprimir tudo, ser o termo mais adequado." Também defende o nudismo, um tema polêmico. "Não vejo problema na nudez e acho o erotismo saudável, um aspecto forte das relações humanas." E provoca: "A censura sim é imoral e promove a mutilação do ser humano. O País precisa explodir, não pode ser contido. O Brasil é maravilhoso, com grande potencial, o que deve vir à tona." Com relação à produção, o autor de telenovelas defende que uma obra bem-feita permanece na memória e contribui para o esclarecimento da população. Para ele, a produção de telenovelas dos anos 70 demonstra com clareza essa idéia. "As novelas não causaram o embotamento cultural, essa é uma visão reducionista, a televisão teve um papel importante na conscientização das pessoas e as novelas foram um foco de resistência." Ele defende a flexibilidade dos autores brasileiros para transmitir uma mensagem apesar da censura. "Em Escalada, um trabalho sobre a construção de Brasília, fui proibido de falar sobre Juscelino Kubitschek, então, os personagens cantavam Peixe Vivo, um símbolo do governo JK." Lauro César Muniz discute sobre outros aspectos de seu trabalho e da vida política naquele momento. Assistir Vox Populi é mergulhar no universo dos anos 80.

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