Vovô Alfie conta suas histórias deliciosas

Michael Caine revive, em Elephant to Hollywood, sua trajetória inconfundível

Janet Maslin, The New York Times, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

O livro de memórias de Michael Caine, Elephant to Hollywood, lançado nesta semana nos EUA, é uma autobiografia de celebridade totalmente inspirada nos moldes antigos. Os casos que ele conta parecem familiares ao leitor porque provavelmente já foram contados antes. Caine é um narrador charmoso, especializado em anedotas repletas de nomes famosos. Nestas histórias todas as pessoas famosas agem de acordo com o estereótipo que se faz delas, seja Jack Nicholson sorrindo "com aquele sorriso lupino de Nicholson" ou John Wayne entrando no saguão do hotel Beverly Hills trajando a indumentária completa de um caubói.

"Você vai ser um astro, rapaz", foi a primeira coisa que Wayne disse a Caine. Seguida de "Pode me chamar de Duke". E depois uma piada politicamente incorreta.

Caine já trilhou este rumo antes. Ele escreveu sobre sua vida num livro anterior, What"s It All About?, de 1992. Mas agora ele é Sir Michael Caine, o que significa que ele tem ao menos um novo assunto sobre o qual discorrer. Naturalmente, ele tem histórias para contar do dia em que foi feito cavaleiro. Ele reparou que no aperto de mão da rainha "há um leve empurrão em nossa direção, para o caso de nos esquecermos que a cerimônia já chegou ao fim". Ele conta também que há um quarto dos fundos no Palácio de Buckingham no qual aqueles que vão se ajoelhar perante a rainha podem treinar uma parte importantíssima da cerimônia: levantar-se novamente.

Aos 77 anos, Caine escreve com uma qualidade que se tornou rara entre os autores de livros de memórias. Suas histórias não são açucaradas, mas não apresentam um tom malicioso. "Beverly Hills é muito diferente do lar em que passei a infância, perto de Elephant and Castle, no sul de Londres", escreve ele logo no princípio, referindo-se a um bairro de classe trabalhadora da capital britânica. Ele pode ter percorrido uma longa trajetória, mas transmite a impressão de ter feito uma viagem tranquila, apesar de alguns cômicos acertos de contas aqui e ali.

Quando sai de Elephant e chega a Hollywood, como no título, Caine faz uma descrição animada: "E lá fui eu para a terra dos meus sonhos da juventude. Minhas expectativas eram tão altas que pensei que a realidade seria um desapontamento. Eu estava errado - aquilo era melhor do que meus sonhos mais extravagantes."

Este livro começa com uma vaga promessa de alegria com a desgraça alheia no mundo dos espetáculos: declara-se o relato de uma carreira no cinema que começou bem (Como Conquistar as Mulheres, O Arquivo Confidencial) e então caiu na estagnação. Chegou um momento em que Caine começou a reparar que era convidado a interpretar pais em vez de protagonistas, e recebia roteiros surrados com manchas de café; ele interpretou isto como sinal de alerta.

Mas Caine sempre pareceu tão indispensável nas telas que é difícil imaginá-lo em dificuldades para encontrar trabalho. E as dificuldades, se é que podemos chamá-las assim, não duraram muito. Depois que ele entrou para a franquia Batman (com Batman Begins, em 2005) e passou a ser procurado pelo diretor dos filmes do homem morcego, Christopher Nolan (A Origem), seu retorno ao sucesso foi oficializado. Caine sabe reconhecer o valor de ter uma presença indelével nas telas.

Ele se mostra surpreso com a possibilidade atual de ser um ator de renome que estrela filmes de vampiros. A ideia que ele faz de um astro - uma de suas palavras favoritas, ao lado de "glamouroso" e "luxuoso" - corresponde a Humphrey Bogart e Cary Grant (Caine, nascido Maurice Micklewhite, emprestou o sobrenome atual do filme A Nave da Revolta - The Caine Mutiny -, um sucesso de Bogart). Ele conta muitas histórias desta velha guarda, incluindo uma sobre uma loja de ferramentas de Beverly Hills. Por sorte, Caine aceita o conselho de Elmore Leonard e deixa de fora os trechos maçantes, de modo que até a anedota da loja de ferramentas cumpre um objetivo. Na mesma loja em que ele viu notáveis queridos como Fred Astaire e Danny Kaye, Caine ficou impressionado ao ver Klaus Kinski - um homem mais assustador do que qualquer coisa que os adolescentes fãs de vampiros possam imaginar - comprando um machado.

Status. A maioria dos eventos descritos no livro tem muito mais badalação do que as saídas para comprar ferramentas. Caine gosta da badalação, apesar de saber o quanto pode ser pernicioso o funcionamento da cultura do show business, alicerçada no status. "Como novo garoto na cidade, vi-me muito solicitado enquanto presença nas festas", escreve ele a respeito de seus primeiros dias como membro da realeza de Los Angeles. E a julgar pelas provas apresentadas no livro, ele frequentou almoços, jantares, restaurantes, festas e casas noturnas extremamente exclusivos desde então.

Ele adora o fato de Paul Scofield, que ganhou o Oscar de melhor ator por O Homem que Não Vendeu Sua Alma no mesmo ano em que Caine foi indicado por Como Conquistar as Mulheres (ambos foram aos cinemas em 1966) estar consertando o telhado do celeiro de sua casa enquanto a Academia de Cinema entregava o prêmio a ele. "O que foi que ele disse?" Caine perguntou à mulher de Scofield. Ela respondeu: "Ah, você sabe: "Não é adorável, querida?"". Quanto aos dois Oscars que Caine ganhou (por Hannah e Suas Irmãs em 1987 e Regras da Vida em 2000) e as numerosas indicações que o levaram muitas vezes à cerimônia de entrega do Oscar, "sempre que vejo as lágrimas e as explosões de emoção nas cerimônias contemporâneas, penso em Paul e sorrio". Somente o melhor aluno de uma turma é capaz de reconhecer um semelhante. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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