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'Vou Rifar Meu Coração' aborda música brega

Filme tem a participação de artistas como Wando e esbarra na polêmica sobre Lindomar Castilho

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

03 de agosto de 2012 | 03h10

Um reclama que, quando canta, é brega, mas na voz de Maria Bethânia fica chique. Outro diz que o problema é não ter o sobrenome 'Buarque de Hollanda'. A diretora Ana Rieper sabia que um documentário sobre a música brega com certeza despertaria polêmica. O brega, por definição, é cafona. Revela gosto duvidoso e até mau gosto. No Nordeste, é sinônimo de zona de meretrício. 'Vou pro brega', diz o sujeito e você sabe aonde ele está indo. Mas Ana queria enfocar o universo da música brega, convencida de que ele espelha o País - esse Brasil que se vê em Avenida Brasil, nas noites da Globo. Isso já era esperado, mas ela comprou outra briga ao colocar Lindomar Castilho entre os artistas que dão depoimentos no documentário que estreia hoje.

É ele, inclusive - uma composição sua -, que dá título ao filme, Vou Rifar Meu Coração. Em 1981, devorado pelo ciúme, Lindomar desferiu cinco tiros contra a ex-mulher. Um deles atingiu Eliane de Grammont. Ela morreu e ele cumpriu pena. Ficou preso sete anos. Isso não restitui a vida de Eliane, mas não se pode dizer que Lindomar Castilho tenha ficado impune. Ele vive atualmente mais ou menos recluso em Goiás. Para parte da crítica, não basta.

Os críticos que se emocionam com filmes contra a pena de morte e a dificuldade de reintegração de ex-presidiários à vida social querem mais punição para o cantor e compositor - o seu banimento? "Não imaginei que a presença de Lindomar fosse despertar tamanha polêmica", diz a diretora. "Em Brasília, ela canibalizou o debate e deixou o filme em segundo plano." Não há queixa nem rancor quando Ana Rieper diz isso. Ela constata. A polêmica deve continuar agora que Vou Rifar Meu Coração estreia na cidade.

O filme trata do imaginário afetivo dos brasileiros, com base na música. Na semana que vem, estreia À Beira do Caminho, de Breno Silveira, que também trata de sentimentos e de música, por meio da história de um caminhoneiro (e um menino). Lá, as músicas são de Roberto Carlos. Aqui, são de Odair José, Agnaldo Timóteo, Waldick Soriano, Evaldo Braga, Nelson Ned, Amado Batista. Logo na abertura, Wando conta como e por que criou um de seus grandes sucessos, Moça, para abordar o tabu da virgindade. 'Sei que já não és pura...'

Ana vivia em Sergipe, integrando uma ONG, quando o filme começou a nascer. Sua principal referência não foi nenhum estudo musical, mas uma das bíblias da sociologia no País, o livro Casa-Grande & Senzala, que Gilberto Freyre publicou em 1933. Muita gente o contesta como 'ciência', mas Freyre analisou a importância da casa-grande na formação sociocultural brasileira, bem como a da senzala, que complementa a primeira. Entre a casa-grande e a senzala, entre o branco e o negro (e o indígena), o senhor e seus descendentes, houve muita troca sexual. "O filme analisa essas relações. Afeto, dependência, dominação, decepção, revolta", divaga a diretora.

O espectador pode estranhar que a abordagem de Ana Rieper privilegie o Nordeste - e Sergipe, mas ela morava lá -, praticamente ignorando o Sul, como se nele não houvesse brega. "Não me propus a uma análise do País. Peguei um recorte", ela informa. Seus personagens são variados - mulheres (que falam de homens, "Ele beija em cima e acende o fogo embaixo", diz uma), um par de gays, uma travesti. E os cantores e compositores. Agnaldo Timóteo dá o depoimento mais contundente, falando da permissividade gay com franqueza brutal, nestes tempos de correção. Lindomar Castilho fala sobre o que o ciúme pode provocar, mas sem se referir ao próprio crime. Havia um acordo para não falar do assunto. Compromete o filme? Cinema não é jornalismo, por mais que muita gente, críticos, inclusive, confundam o documentário com reportagem. Ana poderia ter identificado Lindomar como assassino? "Seria discriminação. Ninguém é identificado, ia ferir o conceito", ela diz.

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