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Voto sim, voto não

O papo era sobre as eleições, e eu, lá pelas tantas, num impulso patético e pateta para parecer menos obsoleto naquela roda de vintanistas (assim dizia o Mário de Andrade de quem tinha 20 anos), por pouco não declarei que meu primeiro voto foi em ninguém. Menos mal que esteja ainda em condições de ser fiel aos fatos: votei nulo, sim, mas não na estreia eleitoral.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2014 | 02h08

Meu primeiro voto, aos 20 anos (a idade mínima era 18), nas primeiras eleições pós golpe de 64, foi em Israel Pinheiro para o governo de Minas. Ditadores ainda a meio pau, os milicos permitiram que em Minas e no Rio o povo escolhesse figuras - o Israel e o Negrão de Lima - afinadas com o ex-presidente JK, já caído em desgraça. O primeiro, você sabe, foi quem comandou a construção de Brasília. Sogro de Otto Lara Resende - este, condenado a sair vitorioso naquelas eleições qualquer que fosse o resultado, já que o outro candidato era seu primo Roberto Resende.

No poder, o Israel e o Negrão foram levados a maneirar eventuais arroubos oposicionistas. No terreno da cultura, em todo caso, a direita não apertou tanto o Israel que ele não pudesse dar corda a um saudável delírio do contista Murilo Rubião, permitindo-lhe criar um suplemento literário na aridez do Minas Gerais, o diário oficial do Estado. Vinha encartado nas edições de sábado do único jornal que chegava a todos os municípios mineiros.

Dos grotões, como rotulou o Tancredo, subiam protestos extra literários que iam bater no Palácio da Liberdade. Com especial fragor quando saiu na primeira página do Suplemento o pênis do Affonso Romano de Sant'Anna. Calma aí, eu explico: um verso em que o Empire State Building era descrito como "o pênis maior do mundo". Faladíssimo, aquele falo. Maior bafafá. Na primeira vez que topou com o contista, o governador, que não se destacava pela polidez, indagou: como é, Murilo, muita sacanagem no nosso Suplemento? E, gargalhante, lascou-lhe nas costas um cordial tapão. Justiça seja feita: o Israel nunca meteu ali o governamental bedelho. Em quase meio século de existência, a publicação resistiu a todo tipo de pressão e crise, e sobrevive, já não semanal, e destacada do Minas Gerais, sob o comando do escritor Jaime Prado Gouvêa.

Mas tiene muchas ramas el árbol de mi conversación (esta é do Pablo Neruda), e veja até onde esgalhou meu papo eleitoral.

Foi nas legislativas de 1966 que anulei o voto. Na pré-história da urna eletrônica, você utilizava cédulas de papel distribuídas pelos candidatos. Mais de uma vez participei do mutirão familiar para envelopar cédulas do meu tio Renato Azeredo. Com as sobras de campanha, minha mãe, na máquina de costura, fabricava caderninhos, não raro destinados a que filhos colhidos em malfeitos escrevessem 100, 200 vezes ensinamentos do tipo "não devo falar mentira". Acha que eu aprendi?

De posse das cédulas, o eleitor se dirigia à urna. Fosse hoje, não escaparia da esquisitice verbal: "insira". Mais tarde veio a "cédula única", a ser preenchida in loco, e dela me ficou a gozação do Glauco Matoso: "Nesse papezim de nós votá / é pra fazer um xis ou ch?"

Já não me lembro dos impropérios que inseri na urna, com toda a raiva de quem vinha de 17 dias de prisão política. A palavra de ordem no estudantado era o voto nulo. Fraquejar seria sucumbir ao "voto útil" e nos submetermos às regras do jogo impostas pela ditadura.

Antes anular que sufragar alguma nulidade!, decidi, e mandei ver. E o que vimos? A imprensa mal registrou a maré, afinal mansa, dos votos nulos & brancos, enquanto o legislativo era ocupado por políticos que desprezávamos.

Nem discuto o direito que tem o cidadão de manifestar seu desacordo, e até seu nojo, sob a forma de uma banana eleitoral endereçada à totalidade dos candidatos. Escaldado, hoje sou mais aquela ideia de Cyro dos Anjos, o romancista de O Amanuense Belmiro, formulada em tom de brincadeira mas merecedora de consideração: além do voto "sim", deveríamos ter direito a um voto contra. Não me parece justo que, como no Facebook, a gente só possa "curtir". Ficaria assim: elejo fulano e "deselejo" beltrano. O resultado seria dado por uma conta de menos. Eu adoraria ver um desses malufs perder por 1 a zero - ou, melhor ainda, acabar abaixo de zero.

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