Voto opcional e voto suprimido

A Carolina do Norte é um epicentro da supressão do voto negro

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2016 | 02h00

A eleição presidencial norte-americana está apertada o bastante para os especialistas em pesquisas continuarem a manter um tom de cautela sobre o resultado amanhã. Longe desta colunista arriscar uma previsão sobre a derrota de Donald Trump, pelo amor dos céus.

Mas há outra previsão fácil de fazer. A partir de quarta-feira, os republicanos devem planejar, não como conquistar minorias de volta para sua tenda eleitoral, mas como mantê-las longe das urnas. 40 milhões de eleitores já votaram antecipadamente, de um total de 146 milhões de eleitores registrados em 2016. O voto não é obrigatório nos Estados Unidos.

Na verdade, o voto é visto como um estorvo para o partido que hoje ainda controla as duas casas do Congresso. Durante um comício de Trump, em Nevada, o presidente estadual do Partido Republicano se queixou de que os locais para voto antecipado estavam abertos até tarde demais, acomodando as filas para “um certo grupo poder votar”. O certo grupo seria o crescente eleitorado latino em Nevada, que não deve votar em massa no homem que se lançou candidato chamando mexicanos de ladrões e estupradores.

Não é justo acusar os republicanos de falta de ideias alternativas e de apenas planejar oito anos de obstrução de políticas de Barack Obama. Eles planejaram cuidadosamente o redesenho do mapa distrital no país, a manobra conhecida como gerrymandering.

De dez em dez anos, a cada novo censo, ocorre uma adaptação demográfica dos distritos eleitorais. Na maioria dos estados, as legislaturas estaduais se encarregam do redesenho eleitoral. Liderados por um estrategista, os republicanos implementaram a operação RedMap, mapa vermelho, a cor associada ao partido. Despejaram quantias sem precedentes em certas campanhas estaduais, para garantir que o redesenho a partir de 2010 favorecesse mais distritos vermelhos. Se o crescimento do voto antecipado ajudar a eleger Hillary Clinton, podemos esperar que vão pipocar iniciativas locais para encurtar os horários e as opções de voto.

A Carolina do Norte é um epicentro da supressão do voto negro. Na sexta-feira, um juiz concedeu uma liminar de emergência para evitar o cancelamento de milhares de registros eleitorais em três municípios no estado. Republicanos usaram como critério correspondência postal retornada para tirar o direito de destinatários, a maioria negros, de votar. Um deles foi Grace Bell Hardison, que tem 100 anos e morou a vida toda na mesma cidade. Ao receber a notificação de que seu registro eleitoral não era legítimo, ela protestou e acabou destacada por Barack Obama num comício. 

Quando sair da Casa Branca, em janeiro, Barack Obama já tem pelo menos um projeto para se ocupar. Antes do próximo censo em 2020, um grupo apoiado por Obama e liderado por seu ex-secretário de Justiça Eric Holder vai se organizar, estado por estado, para prevenir manobras como a bem sucedida RedMap.

Obama se tornou o mais proeminente defensor de um debate sobre o voto obrigatório nos Estados Unidos, apontando para o óbvio – uma democracia em que os políticos são eleitos por uma minoria não pode se considerar representativa. Na última eleição presidencial, em 2012, apenas 53% dos norte-americanos com idade para votar compareceram às urnas. Obama obteve 51% do voto popular. Façam as contas.

Uma reportagem da Bloomberg Newsweek nas entranhas da campanha Trump citou um alto dirigente: “Temos três grandes esforços de supressão de voto em curso”. Ele se referia a micro-alvos demográficos, grupos que não votariam em Trump, como negros e jovens à esquerda, mas deixariam de votar, indispostos com Hillary, se atingidos pela propaganda certa.

A ideia de que o voto facultativo protege a democracia não tem sido vitoriosa nas urnas. 

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