Votando hoje

Minha primeira lembrança política é de um comício comunista, em noite muito remota, na Praça Pinheiro Machado, em Aracaju. Nossa casa ficava na praça e meu pai resolveu que ia dar uma espiada e me levar com ele. Não lembro oradores, só lembro uma aglomeração de silhuetas agitadas, em frente do palanque armado sobre o coreto. Ficamos pouco tempo, mas me impressionei com o coro dos participantes, repetindo o que para mim soou como "luí-cálu-pré!", "luí-cálu-pré!", "luí-cálu-pré!". Apesar do medo de que ele me remetesse ao dicionário e, a depender da veneta, me mandasse copiar o verbete com boa letra, perguntei o que queria dizer aquilo.

João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

- Não é luí-cálu-pré - respondeu o velho. - É Luís Carlos Prestes.

Desta vez receando que fosse alguém cujo nome eu devesse ter decorado de algum livro, não perguntei de quem se tratava, apenas assenti com a cabeça, imitando os gestos dos adultos. Ele ainda acrescentou que aquilo era um comício, um comício dos comunistas, mas eu não quis abusar da sorte e novamente não me arrisquei a fazer perguntas. Mais tarde, fui ao dicionário (um Laudelino Freire descomunal, em cinco volumes maiores que tijolos), ver secretamente o significado de comunista, li-o várias vezes, não entendi, fechei o livro e não disse nada a ninguém, para esconder a vergonha.

Algum tempo depois vieram as eleições presidenciais e minha vida política não mudou muito. Foi a primeira vez em que torci pelo resultado de uma eleição, embora deva confessar que por uma questão de conveniência. O velho, já político pessedista ficou, é claro, com o candidato de seu partido, Cristiano Machado. Mas minha mãe, embora não militante, era getulista - "queremista", como se dizia na época - e, como a mais vantajosa aliança doméstica era com ela mesmo, acho que mais ou menos vendi meu voto e juntos saímos vitoriosos.

Ainda mais ou menos nessa época, tive os primeiros contatos com o processo eleitoral, na casa de meu avô, em Itaparica. Meu avô era coronel do tempo em que Itaparica era interior mesmo e as eleições uma produção complexa, que requeria o concurso de diversos especialistas, sob a direção logística de minha avó, respeitada como a pessoa mais valente da família e comandante férrea de um batalhão de cabos eleitorais. A festa da democracia era caprichada e, nos dias próximos às eleições, já estavam organizadas as mesas de refeições em rodízio contínuo, o pessoal do empréstimo de sapatos, do empréstimo de ternos (alguns eleitores só admitiam votar de paletó e gravata) e demais petrechos eleitorais. Antes, já se haviam acumulado meses de trabalho, sobretudo no frequentemente penoso ensinamento de como desenhar a assinatura, porque analfabeto não podia votar e era preciso providenciar um jeitinho de superar essa odiosa discriminação. Tinha gente que levava mais de um ano para aprender o desenho, embora minha avó, que sempre professou ser "da realidade", comentasse que, com almoço e janta de graça todo dia, Ruy Barbosa não ia passar da cartilha.

Hoje, com tudo isso já envolto na bruma do tempo e da memória distante, as coisas certamente mudaram. Terei mudado eu, já mais coroa que o desejável, e mudaram as eleições. Não há mais minha avó e seus esquadrões eleitorais. Os marqueteiros são diferentes e, no máximo, podem ser acusados de manipulação, mas nunca de comandar diretamente o eleitor. Também não há mais coronéis e, embora mande a verdade reconhecer que os esquemas de sapatos, dentaduras e correlatos ainda existem, somos, afinal, um país moderno, livre desses velhos vícios.

Mas houve mesmo mudanças e, se houve, estamos melhor agora? Talvez, mas me ocorrem novamente as reformas, elas sempre me ocorrem, quando penso no Brasil. Todos aparentemente concordam em que o país precisa de reformas. Não são mais chamadas, como antigamente, de reformas de base, mas não se discute sua necessidade e talvez apenas se debatam prioridades, entre a fiscal, a política, a judiciária e outras, fáceis de arrolar. Contudo, só se fala nelas de raspão e, na campanha agora encerrada, elas não mereceram atenção, a não ser passageira. As reformas continuarão a ser algo em que se fala, não algo que se faz. Será que não precisamos mais delas?

Nenhum dos candidatos ofereceu uma visão do futuro, um projeto, uma vocação nacional, um plano coerente de ação, nem mesmo um símbolo ou um slogan, como os "50 anos em 5" de JK, que pelo menos tinha uma força inspiradora e aglutinadora. Ouviram-se deles arrolamentos de providências, como se a tarefa do governo não passasse de ir tocando uma série de medidas pontuais, uma aqui, outra lá, sem integração numa estrutura orgânica, que deixasse claro para onde se pretende que rume a sociedade. Qual a face programática, qual, por assim dizer, a filosofia de governo que se pretende adotar o eleitor não sabe, ou se sabe, é por meios particulares ou adivinhação, pois dos candidatos é que ele não ouviu senão afirmações genéricas e vagas, fáceis de dizer e com as quais qualquer um concorda, como educação de qualidade para todos, inclusão social, melhor distribuição de renda, segurança e assim por diante.

Tanto assim que é bem ilustrativo um comentário feito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, num programa de televisão. Com um risinho, ele observou que as diferenças entre os candidatos, são na verdade muito pequenas. Não está havendo, observou ele, disputa por uma causa, mas apenas uma disputa pelo poder. Ele deve saber do que está falando. Não vamos hoje, de jeito nenhum, escolher o quê, isso já era. Vamos apenas escolher quem. Entendo aquele que achar úni-dúni-tê um bom critério.

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