Voos leves e um olhar sobre o Brazil que até o Brasil desconhece

O banzo no quinto álbum de Ceumar só aparece mesmo na sinuosa canção de Itamar Assumpção, uma de suas referências modernas. Não há sensação de saudade-chavão de quem deixa a terra natal - até porque a música de Ceumar, mesmo com todas as referências da cultura popular, não corresponde ao clichê do Brasil turístico. E é notável como a simplicidade e a brasilidade de suas canções ganham novos ares no toque jazzístico de Del Ferro, Van der Hoeven e Keus, sem que soe ornamental, neste Live in Amsterdam.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2011 | 00h00

É mais um disco ao vivo de Ceumar (o anterior é Meu Nome - Live in São Paulo), porém tem seus méritos sobre todos os desprezíveis do gênero que povoam o mercado, primeiro porque ambos foram gravados em teatros, não em rodeios. No anterior, acompanhada apenas de seu violão, Ceumar mostrava uma série de canções autorais inéditas, portanto desconhecidas do público.

Neste, ela recria canções de seus outros discos, como Dindinha, de Zeca Baleiro, que virou sua assinatura musical, Banzo (Itamar Assumpção), parcerias dela com Yaniel Matos (Dança), Mathilda Kovak (Oração do Anjo) e Sérgio Pererê (Gira de Meninos), além de uma antiga de Baleiro, Iá Iá, nunca antes gravada. Todas desconhecidas do público holandês.

Há uma grande vantagem nisso. Pode-se gravar o disco ao vivo, captando todo vigor do show, sem o inconveniente de aplausos por reconhecimento, gritarias e coros estridentes. Se bem que no caso de Ceumar, esse risco é mínimo.

Melhor ainda no CD gravado em Amsterdã, porque a plateia atenta e respeitosa espera até a última nota para apreciar a canção na íntegra e só depois aplaudir. Daí basta editar as faixas num programa como o SoundForge ou Audacity, cortando as palmas e assobios, e tem-se um disco "limpo", como se fosse feito em estúdio.

A música de Ceumar tem a placidez e a elegância de um voo de garça e ela e o trio brincam em cima disso, abrindo espaço para improvisos sem contudo chatear o ouvinte com aqueles arroubos de músicos exibicionistas.

Se ela recorre à bossa nova, nada de satandards: é de lavra própria a delicada e bem-humorada Jabuticaba Madura, em gravação melhor do que a registrada no álbum anterior. Se é para cair na folia dançante, traz um obscuro e contagiante coco de Jacinto Silva e Onildo Almeida, Gírias do Norte. Sua porção mineira encerra o show em alta voltagem, com Gira de Meninos. É um Brazil que até o Brasil desconhece.

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