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Humberto Werneck
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Voo Cego

Fernando Sabino gostava de dizer que o escritor escreve não porque saiba, mas para ficar sabendo. Falava, claro, do ficcionista – antípoda, por exemplo, do jornalista, que só vai ao texto quando já sabe; muito diferente do artista, para quem a palavra não é simples meio de dizer uma coisa, e sim a própria coisa. Não fosse assim, pudesse ser escrito de outro jeito, o Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa se reduziria a uma história de moça travestida de vaqueiro.

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

08 de setembro de 2015 | 02h00

Pensei nisso uma vez mais, faz uns dias, enquanto ouvia em Araxá o papo de dois ótimos romancistas, o argentino Leopoldo Brizuela e o brasileiro Bernardo Carvalho, naquele que, para mim, foi o melhor momento do IV Fliaraxá, festival literário criado e comandado por Afonso Borges. 

O que diziam o Bernardo e o Leopoldo, com palavras não muito diferentes das que usava Sabino, é que a viagem do ficcionista, por planejada que seja – caso de Autran Dourado, que arquitetava em detalhes seus romances –, é em larga medida um voo cego. Aquela história, concluí de novo, do sujeito que parte de Lisboa para comprar noz moscada na Índia e descobre um Brasil. É esse imponderável que torna fascinante a aventura literária. A propriedade que tem a arte de desvendar, trazendo-as à tona, coisas de que o autor não suspeitava e que, não raro, até mesmo temia. Só assim vale a pena encarar as agruras da escrita. Agruras, sim – e não custa lembrar Dorothy Parker: escrever é horrível, o bom é ter escrito.

Permita-me invocar a experiência miúda de quem foi na juventude um aprendiz de ficcionista. Escrever alguns dos contos que várias décadas mais tarde juntei num livro, não por acaso chamado Pequenos Fantasmas, em edição curtinha e quase confidencial – 500 exemplares para distribuição a dedo –, foi para mim algo relevante, muitíssimo além de eventual qualidade literária. Pouco importa, na verdade, se o jovem que fui produziu coisa boa, sofrível ou ruim; importa a aventura de ter escrito aqueles contos, na medida em que escrevê-los me levou a zonas escuras de mim mesmo.

Uma das histórias, em especial, foi para mim reveladora. Trata-se da descrição do que transcorre numa casa em seguida à morte de alguém cujo nome não é dito. Ninguém ali tem nome, aliás, nenhuma das pessoas da família que se empenham em preparativos para o velório. Ia eu, tomado de uma espécie de febre, pela oitava lauda do conto, quando, de repente, me baixou a consciência de que estava narrando, causticamente, o que se passou em nossa casa na madrugada em que morreu a minha avó paterna. 

Travei no ato, horrorizado com o monstro que me descobri: então morre a mãe de meu pai e eu trato aquilo não só como literatura mas também com acidez e sarcasmo? Não importa que nenhum leitor viria a reconhecer o acontecimento por detrás do conto, inconscientemente distorcido pelas lentes da ficção: agora eu sabia sobre o que estava escrevendo, e a utilização do assunto era, para mim, moralmente intolerável.

Mais horrorizado ainda, fui me descobrir nos traços de um personagem a quem, na distribuição de tarefas mortuárias, coube redigir o convite fúnebre, e que, em meio à compunção dos familiares, se vê monopolizado por uma dúvida pronominal: “a se realizar” ou “a realizar-se”? É isso, não a perda de alguém querido, que o faz sofrer ali. Não se fica sabendo como resolveu a questão dos pronomes, mas está claro que se saiu bem: o convite continha uma “sutil originalidade sintática, capaz de atrair às exéquias os filólogos municipais”.

Esse esteta funerário era eu – sim, na vida real, aos 18 anos, vivi aquela madrugada, encharcado até onde pudesse de fervor das letras, a executar o que a rigor foi a primeira tarefa de escritor de que alguém me incumbiu. Relendo as linhas ainda frescas, retrocedi ao momento em que um tio (o mesmo que, um ano antes, dera ao aspirante da literatura aquela máquina de escrever) põe a mão sobre meu ombro: “Você faz o convite fúnebre”.

Demorei dois anos para resolver a questão de que para um criador, seja ele grande ou minúsculo, nada é interdito. Quisera ter sabido então o que só muito tarde fui ouvir de António Lobo Antunes: a imaginação nada mais é que a forma como organizamos os materiais da memória. Tudo ali está, e tudo é nosso. Não teria tardado tanto a retomar meu conto e, sem culpa, chegar ao ponto final. E se a literatura nada ganhou com “O Doloroso Dever”, fazê-lo ficou sendo inesquecível experiência de libertação, forte o bastante para ainda hoje tocar o coração do ex-jovem que a viveu.

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