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Voo 1052

Andávamos em bando pelo aeroporto. 1052 já era o nome de um sentimento

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2017 | 02h00

Foi nesta última quarta-feira, aguardando a ponte aérea CGH-SDU, que deveria sair às 19h30. Cheguei ao aeroporto pouco depois das 18h porque gosto de fingir apreço pela antecedência, mas, na verdade, o que gosto é de ter uma hora inteira no portão de embarque, sem wi-fi, para poder ficar lendo sem culpa.

Tudo corria normalmente: os voos estavam atrasados por causa da chuva, duas irmãs com cerca de 2 e 4 anos brigavam pelo Ipad e um rapaz mascava chiclete de boca aberta enquanto brincava de ficar chutando o próprio chinelo para frente e para trás. Congonhas sendo Congonhas.

Já me preparava para não partir antes das 20h, mas estava muito entretida com minha leitura. Era um livro que ganhei de um editor que me garantiu ser uma das obras primas da literatura brasileira contemporânea. Eu estava detestando, mas seguia lendo o romance apenas para me certificar de que aquilo era mesmo insuportável. Agora já evolui para farpas de ódio – sentimento raro nesse meu peito leve – e já não sei se sou capaz de ir além da página 87.

Estava lendo o nonagésimo trecho no qual ele descrevia mulheres apenas pelo formato do corpo (enquanto todo homem do romance merecia uma longa explanação profissional, psicológica e filosófica), quando o homem sentando na minha frente no portão de embarque gritou “eita, tá pegando fogo no avião!”, enquanto apontava para a janela que exibia a curta pista do aeroporto.

Olhei assustada e, de fato, a turbina de um avião pegava fogo. Mas era um foguinho besta para quem via de fora (e provavelmente nada besta para quem estava lá dentro). Vieram os bombeiros, os jatos de água, a espuma e o escambal. Em 5 minutos já parecia estar tudo bem, mas a pista ficou fechada por mais de uma hora.

O resultado nós já sabíamos: voos cancelados, voos remanejados para Guarulhos e outros aborrecimentos. Mas meu voo, o 1052, seguia misterioso. Constava apenas como atrasado, sem maiores detalhes. As horas foram passando e todos tentavam buscar informações, sem sucesso. O senhor de origem nipônica ia ao balcão a cada 10 minutos e voltava com novidades pouco relevantes que contava para sua esposa enquanto os demais passageiros, inclusive eu, esticavam o pescoço para ouvi-lo.

Com o passar do tempo, as pessoas começaram a dialogar e divagar o porquê do nosso voo ser um dos únicos que seguia sem desfecho. Fazíamos as contas do horário para tentar entender se conseguiríamos pousar no Santos Dumont. Começava a nascer ali um improvável espírito de equipe: todos éramos 1052, cansados e impacientes. Mas os passageiros deixaram de ser meros indivíduos isolados para transformarem-se em membros de um time.

O gordinho da regata vermelha trazia notícias para todos. As adolescentes entravam na internet para tentar descobrir se nosso avião já havia pousado em Congonhas, informando-nos em voz alta. Pessoas iam ao banheiro e pediam para os outros, que já não eram assim tão desconhecidos, olharem a mala, guardarem a poltrona ou segurarem o avião, caso o embarque começasse sem elas.

Já eram quase onze da noite quando cancelaram oficialmente o voo. Andávamos em bando pelo aeroporto. 1052 já era o nome de um sentimento comum de expectativa e frustração. Fomos todos juntos até a esteira de bagagens e depois até o check in para tentar remarcar as passagens. Ajudávamos a moça que estava sozinha com dois bebês, pedimos cadeira de rodas para a senhora de quase 90.

Cheguei em casa já era quase meia noite, com o voo remarcado para a manhã seguinte, sabendo que nunca mais veria os membros do voo 1052. Mas fomos uma coisa só durante aquelas 4 horas. Fomos cúmplices e próximos, quase uma família 1052. Tornei-me 1062 na manhã seguinte. Mas, dessa vez, tudo correu bem e os passageiros nem olharam uns para os outros, cegos e invisíveis.

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