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Lúcia Guimarães
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Volver a los 19

Ele é irresistível como personagem para a mídia estrangeira. Um neto de imigrantes japoneses de 19 anos que lidera protestos e se declara de direita. E num país em que a safra remanescente da direita é mais caricatura do que corrente política. Mas, ao ler várias entrevistas de Kim Kataguiri na imprensa de língua inglesa, a última coisa que me passou pela cabeça foi um futuro Roberto Campos.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2015 | 02h04

A primeira imagem que me ocorreu foi a de uma outra jovem de 19 anos, ajudando a planejar uma greve na ditadura militar. Cabelo quase na cintura e saias estampadas quase no pé, esta jovem votava nos trotskistas do diretório acadêmico, não porque tivesse lido Trotsky ou defendesse a ditadura do proletariado. Votava num punhado de pessoas cuja postura de desafio e risco parecia atraente no Brasil dos generais. Votava contra o status quo. Esta jovem era eu.

Felizmente não havia celulares para registrar o que eu dissesse, nem rede social para difundir minha inconsistência. Além disso, eu não liderava grupos para atrair a estenografia que muitas vezes marca a visão do Brasil pelo olhar estrangeiro. Felizmente, ninguém me levou a sério.

A segunda imagem que me ocorreu ao descobrir que a noção de libertário havia sido importada no Brasil junto com a falsificação que a cerca hoje nos Estados Unidos, foi a de outros jovens franzinos de 19 anos. Eles se amontoavam no Zuccotti Park no sul de Manhattan, que eu frequentei em várias ocasiões, do começo da ocupação, em setembro de 2011 a seu violento desmonte, em novembro de 2011. Era o mais célebre acampamento do movimento Occupy Wall Street. Ficava frustrada de constatar como o outro olhar estrangeiro, o dos meus conterrâneos, reduzia aqueles jovens a maconheiros alienados e caprichosos, cujas reivindicações difusas poderiam ser curadas com um bom chuveiro e uma muda de roupas limpas.

Sim, o movimento Occupy foi difuso, incongruente e desapareceu não só numa poeira de desorganização. O papel do dinheiro na política americana, um dos focos do protesto, torna muito mais difícil a existência de movimentos sem um foco de laser, como o casamento gay. Mesmo o casamento gay teve a adesão de bolsos profundos. Mas se engana quem vê no Occupy nada mais do que uma tardia e anacrônica produção do musical Hair, que saiu logo de cartaz por falta de público. Querem um sinal? Que tal uma figura caricata da direita americana como o senador texano Ted Cruz, declarado candidato a presidente? Ou Hillary Clinton, também candidata e mulher do ex-presidente cuja equipe econômica estimulou Wall Street a agir com a negligência que desaguou na pior recessão desde a Grande Depressão? O fato de que tanto Cruz como Clinton falam em desigualdade, ainda que com perspectivas diferentes, não deve ser dissociado da conversa que se tornou mais intensa com o Occupy.

E assim, quando ouço o improvável ícone desta suposta direita nascente no Brasil, não tenho ganas de correr para a rede social e esbravejar como se ele fosse o protótipo de um futuro executivo cinquentão de Wall Street sob investigação federal. Kim Kataguiri pertence à geração que era criança quando o Partido dos Trabalhadores se tornou a situação. Esta geração cresceu observando que a esquerda no poder confundia emancipação social com adquirir TV de plasma, desenvolvimento com emporcalhar o meio ambiente, governar com aparelhar. O que esperam os adultos indignados deste jovem?

Ele não foi consultado sobre o rumo que o país ia tomar porque esta deliberação favoreceu sobrenomes como Collor, Sarney, Maluf. Ele não foi resgatado da miséria abjeta por um programa de assistência, portanto, de seu conforto como estudante de economia, construiu sua rebeldia contra o status quo que conhece: "Compre mais e vote em mim," como Cesar Benjamin resumiu o lulismo, num artigo na Piauí que considero leitura obrigatória para quem se situa em qualquer parte do espectro político.

Não se pode comparar a ditadura de então à democracia. Mas a falsidade anacrônica do "estado mínimo" não é diferente do trotskismo daquela estudante confusa.

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