Volume de ensaios sobre Blade Runner traz texto de Cabrera Infante

Livro é inédito no Brasil, e foi lançado na Espanha em 1988

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo,

17 de agosto de 2012 | 20h00

A história mais discutida de Philip K. Dick, Sonham os Androides Com Carneiros Elétricos?, transformada há 30 anos no filme Blade Runner pelo cineasta Ridley Scott, vai ganhar uma sequência. O diretor escreve o roteiro da segunda parte de Blade Runner há algum tempo e deve colocar uma mulher no lugar do protagonista masculino, um caçador de androides convocado para infernizar a vida da escória que habita uma letal e futurista Los Angeles. Refugiados dos cinco continentes, seus moradores falam uma única língua, o desesperanto, neologismo criado pelo escritor cubano Guillermo Carrera Infante (1929-2005) para resumir a agônica fala desses desesperados. Nela, Deckard, o detetive, resiste inicialmente à convocação para caçar androides nessa Babel em ruínas, que se esvai sob a chuva ácida.

Em 1988, a Tusquets Editores de Barcelona publicou um livro sobre o filme que reúne alguns dos melhores ensaios escritos sobre ele por autores como o citado Cabrera Infante e os espanhóis Rafael Argullol, Antonio Miró, Vicente Molina Foix e Fernando Savater. Inédito no Brasil, Blade Runner (série Cuadernos Infimos 135) é uma pequena preciosidade em que se destaca o ensaio de Cabrera Infante sobre o livro e filme, La Caza del Facsímil.

Blade Runner marcou o advento do gênero cyberpunk no cinema, ao fazer da caça aos androides rebeldes um tratado filosófico sobre a responsabilidade moral de replicantes: se os clones dos humanos cometem crimes, quem deve responder por eles? Há dez anos, o filósofo alemão Jürgen Habermas fez essa mesma pergunta, respondendo que, do ponto de vista moral e jurídico, a clonagem de seres humanos lesa a condição de simetria na relação entre adultos e destrói a ideia de respeito mútuo e liberdade.

Essa assimetria persegue Blade Runner, que fala de replicantes criados em laboratórios e programados para diversas funções na sociedade, espécie de uma "geração de segunda mão" para trabalhos perigosos como o do policial Deckard, que mata sem saber se ele mesmo não seria um ser artificialmente criado pela corporação que persegue os androides subversivos. A Los Angeles de 2019 ( na época, o máximo em matéria de futurismo), é a meca da clonagem de embriões humanos e de animais. Os quatro androides de Blade Runner que escaparam de colônias espaciais e voltaram à Terra (território interdito, onde são considerados ilegais) têm, como Deckard, uma missão: exigir do "criador" Tyrell mais tempo de vida e uma resposta definitiva sobre a razão da existência.

Cabrera Infante, em La Caza del Facsímil, implica com o termo replicante. Para o escritor, eles seriam robôs mais perfeitos que um androide, "um homem com virtudes físicas e mentais centuplicadas, tanto como seus defeitos morais". E que diabo fariam esses robôs distantes de seu satélite artificial descer à Terra e viver num inframundo sob uma chuva perene e aniquiladora, pergunta o cubano, para logo em seguida observar que prefere o filme de Ridley Scott ao livro de Philip K. Dick, especialmente pelo epílogo. O filme, argumenta o cubano, termina com uma hollywoodiana luminosidade, "a plácida natureza aberta de uma pradaria de sonho". No livro, com uma natureza criada artificialmente pelo ateísmo humano.

O mundo do futuro, em Blade Runner, assemelha-se a uma carcaça abandonada como a das torres chinesas que nunca foram habitadas (há centenas de prédios novos nesse estado na China, que viram ruínas antes da inauguração). O urbanismo canceroso e a arquitetura pós-moderna seriam, então, os frutos da justaposição entre o ornamentalismo do passado e a secura formal do presente, segundo o ensaio de Alberto Cardín. Blade Runner, define ele, é a antítese do ascetismo de 2001, Um Odisseia no Espaço.

O tema mais debatido nessa pequena obra ensaística não é, porém, o visual de Blade Runner, mas as questões filosóficas que propõe o texto original de Philip K. Dick, em especial o confronto entre Criador e criatura, metaforizado na relação entre Tyrell, o procriador de humanoides, e os replicantes subversivos. Rafael Argullol, em seu ensaio También Zeus Debe Caer, observa que o assassinato de Tyrell pelo replicante Roy faz com que o criminoso "se assegure do caráter inevitável da morte". Tyrell, diz Argullol, é só consciência, a consciência perversa de um ser que se julga superior e quer usurpar o trono divino com seu conhecimento científico. Roy, ao contrário, é um pobre simulacro que precisa matar seu Deus para se tornar humano. Um trágico deicida, enfim.

 
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