Dida Sampaio|Estadão
Dida Sampaio|Estadão

Volta do Ministério da Cultura é comentada por artistas e intelectuais

Anúncio da recriação da pasta foi feito neste sábado, 21, pelo ministro da Educação Mendonça Filho

Redação, O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2016 | 18h00

Depois do anúncio feito neste sábado, 21, pelo ministro da Educação Mendonça Filho de que o presidente interino Michel Temer recriou o Ministério da Cultura - transformado por ele em secretaria vinculada ao Ministério da Educação assim que a presidente Dilma foi afastada -, artistas e intelectuais comentam decisão.

O ministro da pasta será Marcelo Calero, anunciado na quarta-feira, 18, depois de algumas tentativas frustradas do atual governo de escalar uma mulher para o posto. 

Fernando Haddad, prefeito de São Paulo

"Foi ótimo, uma vitória. O governo está voltando atrás. Agora falta Ciência e Tecnologia."

Nabil Bonduki, ex-secretário de Cultura da cidade de São Paulo

"Acredito que a mobilização do setor deve continuar, porque não é só voltar o ministério, há que se garantir as políticas."

Anna Muylaert, cineasta

"Não conheço esse novo ministro. Aparentemente, é positivo que volte o Minc, mas um ministério, assim como um órgão de um corpo, faz parte de uma política de governo. Quando pedimos o Minc estamos falando de políticas de democratização e descentralizaçao do fazer/consumir cultura que vinham sendo praticadas por ministros como Gil e Juca Ferreira.  Então, antes de celebrarmos  a volta do Ministério da Cultura precisamos saber que Minc será esse?"

Paula Lavigne, empresária, produtora e presidente da Associação Procure Saber

"Estamos indo por partes, contentes por ter de volta agora o que é do Brasil. Mas isso mostrou o quanto as coisas estão erradas, como a discussão está rasa. As pessoas acham que os músicos estão brigando por shows, por palcos. Estamos fazendo shows nas ocupações por toda a Cultura. Estou chocada de saber como há reacionários no país, pessoas que nos chamam de vagabundos. Vamos ver agora os próximos passos, não sei se os shows vão continuar. Infelizmente, a classe musical ainda está desunida."  

Renato Janine Ribeiro, filósofo e ex-ministro da Educação, pelo Facebook

"A anunciada recriação do Ministério da Cultura mostra que esse é o governo mais suscetível a pressões dos últimos anos. Isso decorre, obviamente, de sua vulnerabilidade. Razão a mais para pressionar e protestar."

Claudia Leitão, ex-secretária de Economia Criativa, uma das mulheres que, convidadas por Temer a assumir a pasta da Cultura, se negou

"Meu temor é de que essa volta do MinC seja um cala boca. Eles colocaram a mão em um vespeiro quando mexeram com a cultura. Essa reação das ruas tem sido muito interessante. Tenho certeza de que a decisão veio depois das mobilizações, você viu ontem (sexta, 20) Erasmo Carlos e Caetano Veloso juntos, cantando em uma ocupação. A pergunta agora é: que lugar esse ministério vai ter no Brasil? Com a Dilma era um MinC à míngua. As pessoas precisam continuar nas ruas."

José de Abreu, ator, pelo Twitter:

"Não tenho a menor dúvida que a classe artística vai continuar na luta. Ja sabíamos que o Temer iria recuar".

Orlando Senna, diretor de Iracema, uma Transa Amazônica e gestor cultural

"Foi uma vitória não apenas dos artistas, intelectuais e demais trabalhadores da cultura e sim da sociedade brasileira. Da consciência crescente na nossa sociedade de que a cultura é o lastre maior da cidadania, da liberdade de expressão, da política, dos direitos humanos. Espero que essa mesma força dos trabalhadores da cultura e da consciência coletiva atue, da mesma maneira incisiva, no que se refere à televisão pública. O Conselho Curador e os funcionários da TV Brasil estão sumamente preocupados com ingerências indevidas do governo Temer na direção da empresa, a Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão (ABPITV) e o Sindicato da Indústria Audiovisual (Sicav) divulgaram uma nota no mesmo sentido. A televisão pública deve ser gerida pela sociedade e responder à sociedade e não a governos. Como está na Constituição, televisão estatal é uma coisa, televisão pública é outra."

Toni Ventura, cineasta

"As idas e vindas deste novo-velho governo ilegítimo revelam o subtexto de escárnio da elite político-econômica pela Cultura. Bem vinda a volta do MinC, mas que Ministério será esse? A escolha de um gestor muito jovem, que só conhece os artistas e produtores do Rio, sem experiência de fundo sobre o modus operandi da produção cultural, para gerir um setor de enorme complexidade e diversidade é temerária. Não conheço a pessoa nem duvido de sua capacidade profissional, mas ele vai precisar de muita inteligência e magnitude para fazer avançar os pleitos da atividade. Senão, vai ser um mero adereço de cena nesta farsa política que estamos vivendo. O momento agora é de pensar grande. O que o governo Temer-Marcelo tem de concreto a propor para o avanço das indústrias culturais do país?"

Laura Erber, artista plástica e editora

"É patético, e a mídia em geral tem veiculado uma cobertura falseada da posição da classe artística nas ocupações. Nas reuniões e assembleias nas sedes das Funartes ocupadas ficou muito claro e explícito que não haveria negociação pela volta do MinC com o governo interino. O objetivo do movimento é a queda de Temer." 

Micheliny Verunschk, escritora

"A extinção e posterior recriação do Ministério da Cultura  são falácias, pois não há legitimidade no atual governo para qualquer ato, seja ele de que natureza for. A recriação do MinC, nesse momento, parece sugerir o esvaziamento das lutas pelo retorno do Estado de direito. Não é pelo Minc, é pela democracia."

Ignácio de Loyola Brandão, escritor

"Temo que esse governo passe a funcionar assim. Cancela, tem protesto. Recria, tem protesto. Cria de novo, tem protesto. Como as ondas do mar que vão e voltam. Será assim até o fim do governo? Incertezas, insegurança o tempo todo?"

Jéferson Assumção, escritor e ex-diretor do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca do MinC

"O recuo de Temer é uma vitória dos novos sujeitos políticos e culturais que emergiram no Brasil da última década e que não aceitam a forma como ele chegou ao poder, nem a diminuição da importância da cultura para uma ideia de Brasil. A recriação do MinC, é claro, não reflete uma mudança de pensamento do governo provisório em relação ao tema e só ocorre devido à indignação ruidosa, criativa e persistente do povo da cultura. Pelo contrário, o projeto de Temer, muito claro desde o início, é diminuir a cultura por ser ela uma área de pensamento crítico e de enorme transversalidade com a comunicação, ciência e tecnologia, educação, juventude, direitos humanos, igualdade racial, saúde etc. Sem cultura, todas as outras áreas perdem, porque educação sem cultura é ensino, saúde sem cultura é remediação, segurança sem cultura é repressão, economia sem cultura é acumulação, comunicação sem cultura é manipulação, e assim por diante. Mas a reinvidicação principal não é pela volta do MinC. É pela volta da cultura como fundamental numa ideia de desenvolvimento social e econômico o que o governo de Temer já demonstrou que não tem interesse, nem legitimidade popular, para realizar."

Eduardo Lacerda, poeta e editor

"Um governo ilegítimo não poderia mesmo tomar ações legítimas. Uma série de ações e depoimentos desencontrados em todos os ministérios mostram uma falta total de rumos e propostas. A recriação do Ministério da Cultura é importante, mas não podemos esquecer do desmonte de uma série de políticas do MinC feitas desde o primeiro governo de Dilma. Nossa luta deve ser pela reconstrução de políticas públicas para a Cultura, o que vai além da existência de um ministério."

José Castilho Marques Neto, ex-diretor do Plano Nacional do Livro e Leitura, que pediu demissão após Temer assumir provisoriamente

"A reinstalação do MinC, fruto da resistência cultural e democrática, não deve ser louvada como um acerto do governo presidencial provisório e muito menos ensejar gestos de boa vontade e integração passiva com os novos mandatários. O que está em pauta aqui é reconhecer ou não um governo regressivo e instalado sob um jogo antidemocrático evidente e ilegítimo frente ao resultado da vontade majoritária de 54 milhões de brasileiros. O fato de voltar a ser MinC não o destaca olimpicamente de um governo reacionário e antipopular. Da mesma maneira, se persistisse o continuado sufocamento financeiro nos governos Dilma sobre a Cultura, que comprometeu seriamente programas e ações estratégicas para a cidadania, como a área de leitura, literatura, livros e bibliotecas que enfrentava o menor orçamento desde 2003, o resultado seria desastroso. Mas ainda mais desastroso seria perder o nexo entre status ministerial somados a recursos para a Cultura e os valores simbólicos que são fundamentais para a construção democrática de uma nação livre."

Domingos Oliveira, cineasta

"Consequente vitória. A cultura é o retrato do país, sinto orgulho de pertencer a uma classe que tem voz. Que reclama, grita, e o seu berro assusta. A volta do Ministério anuncia o retorno da razão ao poder. Viva o inconformismo tenaz dos artistas. Tiram ouro das pedras!"

Francisco Bosco, filósofo e ex-presidente da Funarte

"A volta do MinC se deu por pressão do setor artístico e cultural. É importante dizer, entretanto, que tenho lido muitos artistas defenderem o MinC com uma argumentação completamente destituída do contexto político mais amplo e do sentido político do ministério. Acho essa postura lamentável e, em alguns casos, oportunista. Para mim, a luta pelo Minc é inseparável da luta por um MinC dedicado a políticas públicas abrangentes e inclusivas. Um Minc que volte a ser um órgão do Estado para financiar as velhas elites lobistas é tudo que não precisamos - nós que defendemos um estado democrático no sentido profundo da palavra. A luta pelo Minc não pode portanto ser separada da luta contra o golpe e da luta por uma sociedade profundamente democrática."

Milton Hatoum, escritor

Acho que Michel Temer voltou atrás porque os protestos aumentaram e se espalharam por todo o país. O esforço de Mário de Andrade não foi em vão. 

José Padilha, cineasta

"A cultura, no mundo inteiro, é apoiada pelo estado. Na Inglaterra, na França, na Alemanha, etc. O cinema americano, por exemplo, recebe infinitamente mais incentivos fiscais do que o cinema brasileiro. De modo que a ideia de que existe no Brasil uma "farra" de artistas feita com incentivos fiscais, e que isso é uma distorção em relação ao resto do mundo, é uma ideia que não corresponde aos fatos. Isto posto, o que me parece realmente importante é saber qual será a política cultural do País, quanto do orçamento da união será alocado para a sua consecução, com base em que critérios e mecanismos será feita a alocação dos recursos disponíveis, e quem irá fiscalizar os produtores culturais que receberem estes recursos. A cultura precisa da organização mais inteligente, enxuta e eficiente possível para formular esta política e levá-la a cabo. O nome desta organização não me parece ser o mais importante. Sou a favor de chamá-la de Ministério da Cultura se isto acalmar o ânimo dos formadores de opinião do País. Mas não sem antes lembrar a eles que quem elegeu o Temer foram os eleitores da Dilma. Eu votei nulo."

Ronaldo Bressane, escritor

Há várias leituras dessa presepada. Uma delas é ver esta nomeação como uma espécie de cala-boca, pois, até onde sei, o novo ministro tem um bom trânsito entre artistas do Rio e se notabilizou por deslocar o eixo dos apoios a ações culturais para longe da zona sul (portanto perto das zonas eleitorais afinadas com seu ex-chefe Eduardo Paes); é um diplomata, daí esperarmos um sujeito aberto ao diálogo. Independentemente da capacidade e da sorte do ministro, é óbvio que a primeira percepção é de perda, por conta do excelente trabalho de Juca Ferreira, que tem larga experiência e conhecimento da cultura brasileira - o atual ministro jamais teve trabalho expressivo no setor cultural. É uma nomeação antes política do que meritória. Acima de tudo, mesmo que a realidade e a maturidade se imponham - uma hora os artistas serão obrigados a dialogar com quem ora ocupa o poder -, é evidente que a atuação do novo ministério nasce manchada, posto que ilegitimada pela classe artística, que não se considera de modo algum identificada com o processo que levou ao poder o atual chefe do ministro, o provisório, digo, o interino Temer. Ou seja, vai ser treta!

Ney Latorraca, ator

"Está certo. O ministério tem de ficar."

Eduardo de Souza Barata, produtor teatral 

"Foi uma grande vitória para a sociedade, para os profissionais de cultura e para o Brasil. O MinC é o espaço correto para as discussão e formulação de políticas públicas para o setor cultural. É o ministério que possui especialistas nas áreas de patrimônio público, em memória e em todos os segmentos das artes. Além de entender a preocupação em relação a um distribuição mais equilibrada de verbas para todas as regiões do País. A performance de Marcelo Calero como gestor da pasta de cultura na cidade do Rio foi de excelência. Além de estar sempre disponível para o diálogo. Já houve o compromisso de cumprir com passivo do ministério e a liberação de R$ 230 milhões para isso, em até quatro meses. Também foi anunciado que o MinC terá um aumento de 50% para o orçamento de 2017."

MARIA FERNANDA RODRIGUES / LUIZ ZANIN ORICCHIO / JULIO MARIA / GUILHERME SOBOTA / UBIRATAN BRASIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.