Sérgio Castro
Sérgio Castro

Volta de Juca Ferreira reconhece as investidas culturais empreendidas entre 2002 e 2010

Nomeação mostra que não se produziu nenhum outro nome capaz de transitar entre a política e as artes com a mesma desenvoltura

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2014 | 20h48

A volta de Juca Ferreira ao Ministério da Cultura significa, em tese, duas coisas. A primeira, que há um reconhecimento amplo das políticas culturais empreendidas entre 2002 e 2010, o chamado período Gil-Juca. A segunda, que não se produziu em 14 anos nenhum outro nome com habilidade para gravitar entre dois mundos sempre antagônicos: o da política e o das artes.

Marta Suplicy foi bem no Congresso, mas não teve grande acolhida no mundo artístico. Gilberto Gil tem trânsito livre no mundo das artes, por conta de sua natural desenvoltura no meio (e ainda tinha Juca Ferreira como seu articulador). Ana de Hollanda não tinha nem um nem outro, o que precipitou sua queda.

Juca Ferreira garantiu o cargo ao ser convocado às pressas por Dilma Rousseff para assumir cargo de coordenação na sua campanha eleitoral. Naquele momento, convergiam para a candidatura de Marina Silva os apoios do mundo artístico, sempre tão relegados durante quatro anos e sempre tão cruciais no momento da eleição. Ele voltou, ajudou a arquitetar o encontro da PUC e o do Teatro Casa Grande e reagrupou os apoios no segundo turno, voltando a tornar Dilma uma candidata competitiva.

Ainda assim, a presidente deixou a escolha do Ministro da Cultura para a última hora. Tinha a pressioná-la os arranjos partidários, porque o PC do B, de saída do Ministério do Esporte, tinha a primazia de uma pasta e só lhe sobrava a Cultura. Ao acomodar o PC do B na Ciência e Tecnologia, ela viu-se livre para indicar um nome do próprio partido. “Mas qual PT ela escolherá?”, perguntou essa semana um militante de renome, ex-dirigente do MinC. A dúvida, irônica, tinha sua razão de ser, já que Ferreira não é o nome de predileção da Setorial de Cultura do PT - estes, para gorar sua candidatura, jogaram alguns nomes na roda, como Chico César, Fernando Morais e até Marco Aurélio Garcia e Gilberto Carvalho.

A confirmação de Ferreira, por outro lado, preenche as expectativas de uma esquerda que já se julgava alijada do governo. Ferreira não tem papas na língua: saiu do Partido Verde para o PT acusando “fisiologismo” de seus colegas. No PT, o veem como um dirigente que flerta em demasia com as “causas burguesas” e não distingue a cultura das elites da produção da periferia. Ele não escolhe frente de batalha. Em entrevista há alguns dias à Carta Capital, disse que a “falta de democracia da mídia substituiu censura do regime militar”.

Juca afirmou, ao assumir a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, que ele e Gilberto Gil tentaram fazer um ministério que representasse o momento de redemocratização, de afirmação de um projeto nacional no qual a inclusão era tão importante quanto o crescimento econômico. “A gente queria ultrapassar o limite imediato de botar um pouco mais de dinheiro no bolso das pessoas e garantir qualidade de vida também através do desenvolvimento cultural”.

O Brasil de 2015 parece apontar para outra direção, a de uma nova ambição cultural, de aprimoramento da qualidade estética do que está sendo produzido no País (o que implica uma intervenção direta do Estado) e a visibilidade de uma cultura diversa.

Como secretário de Cultura de Haddad, ele marcou alguns “gols” importantes. A reativação do Cine Belas Artes foi um deles - era um projeto que desfrutava de grande unanimidade entre a classe média dita intelectual na cidade e ninguém tinha se apresentado para recuperá-lo. “O prefeito está recuperando a popularidade em cima de um programa absolutamente contemporâneo de valorizar a cidade e o espaço publico, o transporte público em detrimento do individual”, afirmou. Mas amargou a falta de verba.

Seus adversários apontam diversos vários pontos negativos. Dizem que, com ele, volta ao poder o circuito Fora do Eixo (uma rede de coletivos que atua na área de comunicação e cultura), que é considerado “messiânico e stalinista” por muitos. Mas há problemas mais graves. No momento, o Ministério da Cultura conta com 0,11% do orçamento federal. A classe artística está há anos pedindo 2%, e parece que essa é uma distância que Juca terá necessariamente de assumir a responsabilidade de diminuir.

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