Imagem Lúcia Guimarães
Colunista
Lúcia Guimarães
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Volta, Barack

Acordei com uma certa nostalgia, presidente. Mais ou menos como a que vi nos seus olhos há dez dias, quando Malia fez 15 anos. Como crescem depressa, não? Sinto dizer que, aos 4 anos, seu governo encolheu.

LÚCIA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2013 | 02h07

A saudade do Barack original (ou imaginado?) me fez voltar às imagens arquivadas no computador. Estava plantada na mesma Times Square gelada, no momento das suas duas vitórias históricas, a câmera voltada para as expressões dos eleitores. A explosão de alegria e as lágrimas de redenção em rostos mais escuros que o seu, em novembro de 2008. O alívio, não a euforia, em 2012.

Onde foi parar o jovem ativista comunitário que andava em outra companhia em Chicago? Seus ex-colegas de Harvard hoje pedem perdão presidencial para Edward Snowden e estão mortificados com a sua coleção de siglas sombrias, PRISM, FISA, Nucleon.

Era tudo sedução? Você planejava nos trocar por uma republicana popozuda de um metro e oitenta?

Sim, você teve a oposição no seu pé e jogando sujo, mal acabaram de varrer o papel picado do Grant Park de Chicago. Mas você contou com aliados que Bill Clinton não teve. Ele foi perseguido como um cão vadio (e, convenhamos, se comportou como um cão vadio no Salão Oval) pela mídia de direita. Você, Barack, chegou a Washington no colo de uma nova geração. Eles nunca tinham votado e lhe ensinaram a usar, pela primeira vez na história, a mídia social para quebrar um odioso tabu racial deste país. A mídia de Rupert Murdoch insuflou o Tea Party mas a contrapartida do jornalismo bombástico que os americanos insistem em chamar de esquerda já estava instalada. E, como a hipocrisia é humana, não partidária, aprenderam rápido a confundir opinião com fato. Fizeram vista grossa quando ficou claro que boa parte do aparato de segurança montado nos anos de chumbo de Bush continuava intacto. Já que a CIA não podia mais prender em segredo e torturar, o jeito foi fazer chover bombas de drones sobre civis em locais remotos.

Você foi canonizado, cantou blues em talk-shows, jogou basquete com os grandes. Seu exame de consciência, calculado ou não, que resultou na declaração de apoio ao casamento gay, já lhe garante uma vaga na galeria dos direitos civis. Sua briga pelo seguro saúde para todos, embora marcada por concessões aos variados lobbies corporativos, pode se revelar o seu maior legado.

Quando você disse que não ia se curvar ao ciclo de notícias de 24 horas, pensamos que preservava sua dignidade no circo em que se transformou parte do jornalismo. Não imaginávamos que ia usar uma lei criada na 1ª Guerra Mundial, o Ato de Espionagem, para ir atrás de 'whistleblowers', gente que vazou informação para jornalistas, seis vezes. Em toda a história americana, este ato só foi invocado três vezes. Quando foi que a alergia aos jornalistas se transformou em desprezo pelo jornalismo investigativo?

Sabe o que mais você tem em comum com seu antecessor? Bush também desperdiçou a solidariedade planetária com o povo americano, logo depois do 11 de Setembro. Graças ao pinga pinga de revelações sobre drones, à alimentação forçada de presos em Guantánamo e agora à temporada de revelações sobre a Agência de Segurança Nacional, o sentimento antiamericano é o mais alto desde a guerra no Iraque. Quem diz isso é o Financial Times, que está longe de ser um bastião de simpatizantes da Al-Qaeda.

E o vexame internacional com o avião de Evo Morales? Está contente, Barack? Agora, tiranos latinos que não toleram dissidência em casa se lambuzam na glória da opressão do Tio Sam. E qualquer um, no lugar da Dilma, estaria aliviado com a capa da revista Época de ontem, tuitada para milhões.

Em maio passado, você pediu um diálogo nacional sobre os limites do seu poder e admitiu que o país não pode ficar em estado permanente de guerra ao terrorismo. Por que, então, esta guerra a Edward Snowden que já lhe custou boa parte da confiança dos eleitores jovens?

Há três anos, 25% dos americanos diziam que o país tinha ido longe demais restringindo liberdades civis em nome da segurança. Na semana passada, 45% responderam que o governo já passou da conta. Quem diria que um nerd com seus pen drives, no setor de trânsito do aeroporto de Moscou, poderia provocar esta mudança? Yes, he can.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.