Volta às livrarias obra-prima de Truman Capote

Durante seis anos, o escritor Truman Capote pesquisou exaustivamente os fatos que cercavam o assassinato de um fazendeiro e sua família em uma pequena cidade do Estado do Kansas, em 1959. Ele descobrira a notícia nas páginas internas do The New York Times e tamanha persistência foi recompensada: o assunto rendeu-lhe uma série de artigos na revista The New Yorker que, reunidos, transformou-se em um livro clássico, A Sangue Frio (424 págs., R$ 39,50), relançado pela Companhia das Letras nesta semana. Capote dizia que não encerraria a história sem saber o destino dos acusados, se seriam ou não enforcados. Seu relato entrou para a história das relações entre jornalismo e literatura, criando um texto apurado e definitivo sobre como um momento traumático pode marcar profundamente uma sociedade considerada provinciana. Lançou também um conjunto de regras básicas, que seria avidamente utilizado pelos seguidores do jornalismo literário no mundo inteiro. "Li A Sangue Frio mais de 20 vezes como um aprendizado, analisando cuidadosamente a estrutura dos capítulos e a forma como Capote iniciou cada parágrafo", conta o jornalista e escritor Caco Barcelos, autor de Rota 66 e Abusado (ambos editados pela Record), livros em que tratou de temas delicados, como métodos de extermínio da Rota e o violento controle do tráfico de drogas.Barcelos, atual correspondente da Rede Globo em Londres, utilizou uma técnica semelhante à de Capote, que se dizia o autor do "romance de não-ficção (ou sem-ficção)", na apuração de suas histórias. Barcelos diz que construiu seus livros na rua, entrevistando pessoas e, ao contrário de Capote, gravou algumas conversas. O escritor americano dizia que gravador e bloco de anotações intimidavam os entrevistados, que perdiam a naturalidade e, por isso, deixavam de relatar detalhes importantes.Também o escritor e jornalista Fernando Morais considera o gravador um instrumento vital - autor de diversas biografias, ele enfrentou dificuldades ao pesquisar para o livro Corações Sujos (Companhia das Letras), sobre a Shindo Renmei, grupo de fanáticos japoneses que não aceitava a derrota de sua nação na 2.ª Guerra Mundial e, por isso, cometeu diversos assassinatos no Brasil. "As principais fontes eram senhores de idade que falavam mal o português e não se dispunham a tratar do assunto", lembra. "Assim, como tive de contrapor versões conflitantes, as gravações eram indispensáveis." Joel Silveira, um dos principais repórteres brasileiros e autor dos textos contidos em A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista (Companhia das Letras), também lançado nesta semana, acrescenta mais um detalhe fundamental: "É essencial que a entrevista seja feita na casa da pessoa, pois, ao analisar os livros de sua estante e os quadros pendurados na parede, o repórter já descobre características da personalidade do entrevistado." Aos 85 anos, Silveira tem ficha extensa em relatos jornalísticos com contornos literários. Segundo ele, o estilo foi moldado por uma necessidade. "Senti a necessidade de romancear o texto para me diferenciar do que era escrito na imprensa dos anos 30 e 40", conta Silveira, que acredita na eficácia de uma boa pesquisa para a produção de uma reportagem confiável. Truman Capote dizia ter feito investigações em mais de 8 mil páginas para A Sangue Frio, refazendo o percurso dos dois assassinos desde o local do crime até a prisão em Las Vegas.A busca pela fidelidade faz com que os autores busquem a objetividade do texto jornalístico ao produzir uma obra literária. Assim como Capote, que se esquivou de interpretações e comentários, Barcelos e Morais adotam a impessoalidade na escrita. "Prefiro ser a mosca que ronda o fato e não participa", brinca Morais, revelando, como observa Matinas Suzuki Jr. no posfácio de A Sangue Frio, a existência de uma sedutora zona cinzenta entre jornalismo e literatura.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.