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Volta às aulas (dias de criança)

Anos depois, a gente acaba entendendo que o enroladinho de presunto e queijo não vale tanta luta, que acordar cedo não é tão ruim, que matemática também é poesia, e que a escola foi, e sempre será, um dos melhores lugares para ser e estar

Gilberto Amendola*, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 15h00

Eu já fui uma criança de braço esticado, sacudindo uma nota de 10 para o tio da cantina. A sanha em conquistar um enroladinho de presunto e queijo que ainda não tivesse perdido a própria dignidade era uma espécie de intensivão para a vida adulta.

Estava tudo lá: a corrida para ocupar os melhores lugares (que começava tão logo o sinal do recreio tocasse), a lei do mais forte (os empurrões para ficar perto do balcão), o jeitinho (pedir para algum amigo mais adiantado comprar o risoles para você), a corrupção (pagar para algum amigo mais adiantado comprar o risoles para você), a mão na bunda (metafórica e literal), as calças no chão (o bullying mais cruel da época era baixar as calças de algum incauto naquele fuzuê) e a frustração depois de uma conquista (os salgados não cumpriam aquilo que prometiam quando ainda eram inalcançáveis).

Talvez o tema mais recheado de nuances dessa pandemia do novo coronavírus seja o retorno às aulas. Já assisti verdadeiras rinhas argumentativas sobre "quando" e "como" os estudantes deveriam voltar a frequentar o espaço físico de uma escola. Confesso, vestido de Glória Pires no Oscar, que sou incapaz de opinar. Não tenho certeza. Não sei. Não faço ideia - e é libertador escrever isso.

O que tenho são memórias do meu tempo de escola. Do tempo em que acordava um pouco depois das 6h da manhã, com minha mãe me chamando de "príncipe" e contando até 10 para que eu tivesse mais alguns minutos de sono. Sim, eu era uma criança que pedia para a própria mãe contar até 10 antes de sair da cama.

Também lembro do rádio ligado no banheiro e meu pai ouvindo o "O Pulo do Gato", programa que era apresentado por José Paulo de Andrade (que a covid-19 levou este ano). Você não vai acreditar, mas tenho a memória auditiva dos comentaristas discutindo a rejeição à Emenda Dante de Oliveira (que propunha a restauração das eleições diretas para presidente no País).

Quando não pegava carona com meu pai, subia a Rua Guaxinduva com uma mala pesada nas costas. Preguiçoso, às vezes, não tirava da mochila livros que não iria usar naquele dia. Nela, também ia muito gibi escondido e, eventualmente, uma Playboy da Lucinha Lins que passou pela vida de muitos garotos da minha sala.

Estudei em colégio de freira. As aulas de Religião não me empolgavam, mas eram um alívio antes da Matemática, Física, Química e qualquer coisa que envolvesse números. Ainda tenho pesadelos com a Fórmula de Báskara. Fui um péssimo aluno em muitos sentidos. Era avoado, sem foco, desligado e tonto. Repeti a 5ª série. Sou repetente. E ser repetente me define até hoje.

Na escola, sempre perdi tempo com paixões platônicas por garotas que nunca me deram bola - e que sequer sabiam do meu interesse. Ainda assim, era gostoso sentir esse tipo de paixão que a gente só sente na escola, que a gente só tem por uma colega de classe, por meninas que estão um ou dois anos na nossa frente ou por professoras modernas.

Além de um aluno que nunca pode sequer ser chamado de mediano, também era ruim de esportes. Nunca soube virar cambalhota, cansava depois de duas corridas ao redor da quadra, era frangueiro, último reserva no time de vôlei, o primeiro a ser eliminado durante a partida de queimada.

Apesar de tudo, não odeio meus tempos de aluno. Sinto inveja da garotada que está voltando para as salas de aula agora. Espero que se cuidem, que tenham todas as condições de manter o distanciamento, que usem máscara e álcool em gel. Mas, principalmente, espero que vivam essa experiência com toda energia e amor disponível.

Anos depois, a gente acaba entendendo que o enroladinho de presunto e queijo não vale tanta luta, que acordar cedo não é tão ruim, que no final a democracia vai vencer, que matemática também é poesia, que ser o último escolhido para qualquer esportes tem o seu charme, que amores platônicos trazem sustança para o coração e que a escola foi, e sempre será, um dos melhores lugares para ser e estar.  

*É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’ E OBSERVADOR DA VIDA URBANA  

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