Volta a polêmica: ele é antissemita?

O cineasta suíço Jean-Luc Godard, hoje com 80 anos, uma das figuras mais admiradas e mais contestadas do cinema mundial, será um antissemita? É a pergunta que vem sendo feita no momento em que recebeu (sem comparecer) um Oscar honorário, pela sua obra, no dia 13, em Hollywood. Uma obra vasta, diversa, combativa, admirável e desigual - A Bout de Souflle (Acossado), La Chinoise (A Chinesa), Masculin-Féminin (Masculino-Feminino), Notre Musique (Nossa Música), Vrai-Faux Passeport (Verdadeiro Falso Passaporte), e seu mais recente filme, o magnífico Film Socialisme. Ora, por que Godard não foi a Los Angeles? Sua mulher apresentou duas razões: primeira, ele teria apreciado muito mais se essa premiação ocorresse na grande festa do Oscar, em março. Em segundo lugar, ele está muito idoso para viajar até tão longe.

Gilles Lapouge CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2010 | 00h00

Talvez. Mas, falando mais seriamente, Godard não gostou que a imprensa americana, desde que o Oscar honorário foi anunciado, o tenha atacado, acusando-o de antissemitismo. O Jewish Journal, de Los Angeles, colocou em sua capa: "Godard é antissemita?" Artigos também apareceram no The Jewish Daily Forward, no Haaretz de Israel e no The New York Times.

Esse antissemitismo de Godard é uma história antiga. O jornal de Los Angeles lembrou que o cineasta, em 1978, declarou que seu avô era antijudeu (argumento curioso: Godard é responsável pelos atos e opiniões do seu avô?) Mais grave ainda: em seu documentário Ici et Ailleurs (Aqui e Lá), Godard alterna uma imagem de Golda Meir, a primeira premiê hebraica, com a de Hitler, um amálgama cujo efeito é repugnante.

A cada dia que passa, a polêmica cresce. A B"nai B"rith International, organização judaica de Washington, lamentou que a Academia "tenha critérios para a Arte, mas não para a decência e a moral". O produtor Mike Medavoy afirmou que "se é o caso de homenagear o trabalho de Jean-Luc Godard, muito bem. Mas me encanta menos o seu "espírito estreito" quando fala dos judeus e da indústria cinematográfica".

Os defensores do cineasta retrucam, dizendo que ele não é absolutamente antissemita. Mas é, simplesmente e violentamente, antissionista. Segundo seu biógrafo, Antoine de Becque, "Godard é marcado por um antissionismo virulento, uma solidariedade quase cega para com os palestinos, e uma relação permanente, questionadora, crítica, às vezes obsessiva, mas jamais rancorosa, nem antissemita, com a questão judaica."

Violência. De fato, Godard muitas vezes acusou o Estado judeu de ceder à violência e o criticou convictamente após a guerra dos Seis Dias (1966) e a Guerra do Kippur (1973). E sempre diz que, aos seus olhos, Israel "hoje veste os hábitos do carrasco", tendo usado uma frase ainda mais violenta: "Os judeus fazem com os árabes o que o nazistas fizeram com eles."

Para concluir, lembremos duas coisas: a primeira é que Godard sempre manteve relações tumultuosas com Hollywood. A segunda é que ele, constante provocador, não poupa ninguém, nem seu próprio país, que é a Suíça. Sobre a qual ele diz que Genebra e Lausanne não conseguem entender. "A bandeira suíça significa o sangue dos outros. Faço uma cruz em cima."

Na França, as pessoas são mais favoráveis a Godard, mesmo que algumas das suas frases choquem, e com razão. A opinião, de um modo geral, é que "o antissionismo de Godard, de fato, é virulento. Mas não devemos, de maneira nenhuma, confundir isso com antissemitismo". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Trailer. Veja cenas de Film Socialisme no seguinte site

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