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Volpi total

Mostras e catálogo do pintor vão agitar mercado em 2014

Antonio Gonçalves Filho,

23 Dezembro 2013 | 05h00

Desde 1957, quando uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio consagrou a arte do pintor Alfredo Volpi (1896-1988), não se via tanta agitação em torno daquele que é considerado nosso maior pintor moderno. No dia 27 de março, quando for aberta outra grande retrospectiva sua, desta vez na Galeria Almeida & Dale, uma nova etapa na carreira póstuma de Volpi será inaugurada: a mostra será seguida pelo lançamento do catalogue raisonée do artista, que está sendo preparado pela Base 7 (a mesma empresa responsável pelo catálogo deTarsila), e, possivelmente, pela primeira grande mostra internacional do pintor, ainda em negociação (o Museu Reina Sofia, de Madri, é um dos mais cotados).

Há tempos se fala numa retrospectiva de Volpi, que seria realizada na Tate Modern, em Londres, mas o marchand Antonio Almeida descarta essa possibilidade. "Há, sem dúvida, interesse por sua pintura entre funcionários da Tate, mas não há confirmação por parte da diretoria sobre a mostra", garante. É possível que essa situação mude, pois a retrospectiva em sua galeria deve atrair curadores estrangeiros que virão para a feira internacional SP-Arte (de 3 a 6 de abril do próximo ano). "Vamos organizar uma visita deles à exposição para divulgar sua obra", revela Almeida, que promoveu este ano uma elogiada retrospectiva do pintor paulista Aldo Bonadei, modelo para a organização da mostra de Volpi em março.

A curadora será a mesma, Denise Mattar, que conseguiu reunir trabalhos de todas as fases de Volpi. "Isso porque me interessa mostrar onde começa a abstração em sua pintura", justifica a crítica, revelando que a ênfase será, porém, nos anos 1950. Serão 60 pinturas, 25 delas emprestadas por colecionadores, entre paisagens dos anos 1940, "bandeirinhas" dos anos 1960 e fachadas dos anos 1970, que muitos consideram seu melhor período - há controvérsia a respeito, embora seja uma das fases mais procuradas, fato confirmado pela galeria Almeida & Dale, que vendeu mais de 200 obras de Volpi nos dez últimos anos, algumas para o Norte e Nordeste do país, regiões que começam a competir com São Paulo o direito de ter o pintor na parede (só a Fundação Edson Queiroz, de Fortaleza, tem 27 telas de Volpi em seu acervo).

Se o Brasil inteiro disputa Volpi, por que sua presença em leilões internacionais é ainda tímida? O presidente do Instituto Volpi, Marco Antonio Mastrobuono, um dos maiores colecionadores de sua obra (ele chegou a ter mais de 80), diz que os compradores nesses leilões estrangeiros são brasileiros. "Acontece um fenômeno muito parecido com o do cubano Wilfredo Lam, que é comprado por patrícios residentes na Flórida." No mercado de leilões internacionais existem ainda trabalhos remanescentes dos anos 1950 e 1970 levados por estrangeiros que conheceram Volpi no Brasil, lembra Mastrobuono. Eles são colocados à venda por colecionadores em idade avançada, como um francês que comprou telas de Volpi nos anos 1970, vistas com frequência nos leilões da Christie’s.

Esse recente fenômeno dos leilões de casas internacionais comercializando obras de Volpi tem despertado cobiça. Em maio deste ano, a casa de arte nova-ioquina Phillips retirou do leilão uma têmpera em papel timbrado, sem título, dos anos 1970, após o Instituto Volpi questionar sua autenticidade. A mesma Phillips vendeu no ano passado uma tela da série Fachadas, da década de 1970, por US$ 92,5 mil.

Dos 3 mil trabalhos executados por Volpi, pelo menos 300 deles são considerados de "autoria questionável" pelo Instituto Volpi de Arte Moderna, criado por colecionadores para catalogar e divulgar sua obra (recentemente cedeu obras em comodato ao MAC). "Por isso vamos parar no ano 1984, quando o mestre começou a apresentar dificuldades motoras e sinais do mal de Alzheimer", adianta. E o que acontece com as telas datadas de 1985 a 1988? "Quem quiser que faça outro catálogo", responde Mastrobuono.

Restauro das obras é maior problema dos colecionadores

Não são só os Volpis falsos que tumultuam o mercado do pintor no Brasil. Há uma preocupação permanente entre os colecionadores sobre o restauro de sua obra pictórica, de técnica sofisticada, antiga (têmpera), execução sutil e incomparável inteligência visual entre os modernos. "Para obter o efeito de transparência, Volpi tinha de trabalhar a têmpera como quem faz uma aquarela, ou seja, sem considerar a hipótese de um pentimento, comum na pintura a óleo, pois qualquer erro colocaria a obra em risco", observa o colecionador Marco Antonio Mastrobuono, que acompanhou sua carreira e foi amigo do pintor.

Volpi era um mestre no artesanato, além de grande artista, um dos poucos a executar murais e afrescos na antiga tradição italiana, como o do Hospital do Jaçanã, em São Paulo (que fez com Bonadei, Zanini e Manoel Martins, em 1949) e o painel O Sonho de Dom Bosco, uma das raras obras públicas de grande porte do artista, pintada para o segundo andar do edifício do Itamaraty em 1966. O afresco foi danificado durante as obras de reparação do prédio, atingido pela ação bárbara de manifestantes durante os protestos de junho.

O Instituto Volpi recebeu denúncia sobre o estado da obra, cobrou uma resposta do Itamaraty e já enviou ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) uma carta solicitando licença para consultar um especialista em Amsterdã na esperança de salvar o afresco, bastante comprometido. Como se sabe, o acervo do Itamaraty é tombado, assim como o prédio que abriga o afresco dedicado ao patrono de Brasília, o que valeu ao governo críticas ao descuido com seu patrimônio artístico por ter esse mesmo governo baixado um decreto que permite monitorar coleções privadas do País.

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