Volpi e a música da cor

Quando o crítico Olívio Tavares de Araújo fez a curadoria da retrospectiva Volpi 90 Anos, em 1986, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, logo no início de seu texto estava a citação de uma idéia de Goethe: "A história deve ser reescrita a cada 20 anos, em virtude do progresso do espírito crítico do homem." Coincidentemente, mais uma vez está Araújo às voltas com o mesmo artista, 20 anos depois e no mesmo museu. É ele o curador da exposição Volpi: A Música da Cor, retrospectiva com 135 pinturas do mestre - 20 delas inéditas - que ocupa o MAM até o dia 27. Realizar essa mostra agora não significa mais o caso de reescrever uma história ou uma teoria. "Não há mais nenhuma tese sobre ele que deva ser demonstrada. A palavra não é mais necessária diante da fruição de sua obra", diz Araújo. Alfredo Volpi (1896-1988) é dos mais importantes pintores da história da arte brasileira. Pelo projeto de organização de sua obra, foi possível fazer mais uma releitura de sua produção coerente a partir de um repertório muito maior do que antes - são cerca de 2.400 pinturas catalogadas. Mas, mesmo assim, fica a pergunta: quando se tem a oportunidade de ver um conjunto tão amplo de sua produção? Volpi está nas mãos de colecionadores particulares e o único acervo público que tem um número mais expressivo de suas pinturas é o do Museu de Arte Contemporânea da USP, que recebeu a coleção do estudioso Theon Spanudis. "Ele foi o primeiro comprador regular de Volpi, desde a década de 1950", conta Araújo. O MAM, que agora abriga essa retrospectiva, possui em seu acervo 7 obras do artista - 5 delas estarão expostas. "Não sei o recorde, mas uma obra dele já chegou a ser vendida por US$ 700 mil", diz o curador. Tantas cifras hoje, mas Volpi, o artista-operário (por muitos anos foi pintor-decorador de paredes), filho de pobres imigrantes italianos de Lucca (onde nasceu), não se deixou corromper ao ver ainda em vida sua obra reconhecida. Quem o conheceu, inclusive Araújo, sabe que continuou vivendo na mesma região do Cambuci, em São Paulo, de maneira simples.Inventor de "uma linguagem original", Volpi foi um artista tardio que percorreu o caminho da arte moderna sozinho e a seu modo e definiu o rumo de sua linguagem entre 1938 e 1939. "Não fez parte do modernismo de elite da Semana de 22. Na época, era operário e não teve todas as informações que os modernistas tiveram e foi obrigado a fazer por si o caminho de Cézanne ao geometrismo de Mondrian", diz Araújo. Suas marinhas são conhecidas por "Itanhaéns"Até os anos 1950, sua pintura era baseada na observação da paisagem: em São Paulo, participou do Grupo Santa Helena, que reunia artistas também de origem humilde que "pintavam por vocação". Mas sua atividade mais importante em termos de pintura de observação foi feita em passagens por Itanhaém, no litoral - tanto que suas marinhas são conhecidas por Itanhaéns. Depois delas e das pinturas das fachadas de casas Volpi caminhou rumo à geometrização. A partir de uma "evolução interna", troca a pintura de natureza pela de ateliê, "o puramente mental". No campo da abstração, Volpi começa a fazer, no fim dos anos 50, as bandeirinhas. Em sua obra, como diz Araújo, a bandeirinha não é mera representação de algo que existe, ela é tomada como um signo geométrico - um quadrado sem um triângulo. A partir desse signo, fez as composições de permutações de cores - e por ora elas ganharam a forma ogival. E assim, não à toa, o título da mostra é Música da Cor e no fim de seus dez núcleos, está o que o curador chama de Festa de Bandeirinhas.Volpi: A Música da Cor. Até 2/7. MAM. Av. Parque do Ibirapuera, portão 3, tel. 5549-9688. 10h/18h (fecha 2.ª). R$ 5,50 - grátis aos domingos. Hoje, às 19h30

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